Por Chiara Lombardi — Em um movimento que lembra uma cena decisiva do cinema de arte, o Estado italiano entrou em cena e levou para casa uma peça chave do Renascimento: o Ecce Homo de Antonello da Messina. Anunciado pela Fundação Federico Zeri, o painel foi oficialmente retirado da banca pela casa de leilões Sotheby’s depois que o Ministério da Cultura italiano, por meio da Direzione Generale Musei, adquiriu a obra.
Datada por volta de 1460-1465, a pintura é um painel bifacial único na produção do artista. No anverso, apresenta um retrato de um Cristo sofrido e intensamente humano na cena do Ecce Homo; no verso, uma contemplativa figura de São Jerônimo no deserto, inserida em um cenário poético de rochas e espelhos d’água. Medindo apenas 19,5 por 14,3 centímetros, trata-se, talvez, do primeiro Ecce Homo realizado por Antonello e do único conhecido executado em painel pintado em ambos os lados.
A compra foi feita fora do martelo: o painel, originalmente previsto para a sessão Master Paintings da Sotheby’s em Nova York, foi retirado pouco antes da venda e adquirido pelo Estado por 14,9 milhões de dólares (aproximadamente 12,6 milhões de euros), dentro da faixa estimada de 10 a 15 milhões de dólares. A operação sublinha a importância histórica e o valor simbólico da obra — possivelmente a última peça de tal calibre ainda em coleções privadas.
De entre as cerca de quarenta pinturas hoje atribuídas com segurança a Antonello da Messina, poucas aparecem no mercado com esta magnitude. Outras versões do tema encontram-se em instituições públicas de referência, do Metropolitan Museum de Nova York à National Gallery de Londres, do Louvre a coleções italianas como Palazzo Spinola, em Gênova, e o Collegio Alberoni, em Piacenza.
O painel bifacial tem uma trajetória crítica longa e sólida: foi Federico Zeri quem o trouxe ao conhecimento público em 1981. Na reconstrução proposta por Zeri — leitura acolhida por especialistas como Fiorella Sricchia Santoro — o verso com São Jerônimo seria prova de uma devoção privada intensa; o quadro teria sido transportado em uma bolsa de couro e repetidamente beijado e afagado pelos devotos. Essa hipótese confere ao objeto uma dimensão íntima e performativa, quase como um relicário portátil cujo desgaste conta uma história de fé tangível.
Nos últimos decênios, a peça passou por importantes mostras internacionais, das Scuderie del Quirinale ao Metropolitan Museum, culminando na grande retrospectiva de 2019 em Palazzo Reale, em Milão. A aquisição formaliza, portanto, algo que já era reconhecido: este Ecce Homo não é uma descoberta episódica, mas um nó central no roteiro oculto da arte italiana que ajudou a transformar a iconografia bizantina do “homem dos dores” numa representação moderna e profundamente humana do Cristo sofredor.
Além disso, a obra simboliza a difusão em Itália da técnica a óleo, importada do circuito flamengo, que Antonello soube integrar com refinamento. Como crítica cultural, não vejo apenas uma obra reassumindo um espaço público; vejo um espelho do nosso tempo em que o patrimônio — e a memória coletiva — volta a ser objeto de uma política pública que entende o valor simbólico para o tecido cultural. É um capítulo importante no enredo da preservação cultural: quando o Estado resgata um quadro, resgata também uma página do roteiro que molda identidades.
O gesto do Ministério da Cultura, portanto, tem a força de uma tomada de cena — discreta, mas decisiva — que restitui ao público um objeto que fala tanto das práticas devocionais do século XV quanto das estratégias de circulação e valorização do patrimônio no século XXI.






















