Por Chiara Lombardi — Espresso Italia
A atual revolta no Irã encontra na componente feminina da sociedade o seu motor mais visível e potente. Não se trata apenas de uma explosão política momentânea, mas do encontro entre uma memória coletiva e um novo roteiro cultural: o que emergiu nas ruas é também o fruto de décadas de reflexão intelectual conhecida como feminismo islâmico.
O termo feminismo islâmico foi cunhado por Afsaneh Najmabadi durante uma conferência na School of Oriental and African Studies (SOAS) de Londres, no início dos anos 1990. Desde então, como ressalta Sara Borrillo, essa corrente assumiu múltiplas articulações transnacionais. Ela nasce, em grande parte, nos círculos intelectuais femininos do pós-revolução iraniana de 1979 e pretende demonstrar a compatibilidade entre a busca por igualdade de gênero e os quadros religiosos islâmicos.
No centro desse movimento está o gesto hermenêutico: a desconstrução das normas patriarcais de matriz religiosa e dos estereótipos coloniais que sempre trataram as mulheres muçulmanas como figuras monolíticas. É essa peça do quebra-cabeça que Asma Lamrabet examina em seu estudo “Donne e Islam. Le questioni controverse”, onde define sua abordagem como reformista e decolonial.
Ser reformista, para Lamrabet, significa reivindicar a igualdade de direitos entre homens e mulheres a partir dos princípios universais dos direitos humanos, mantendo, ao mesmo tempo, um olhar crítico sobre a própria identidade islâmica. O termo decolonial remete à necessidade de ancorar a análise no contexto cultural local, resistindo à hegemonia dos discursos ocidentais que, historicamente, funcionaram como instrumentos de dominação — colonial, pós-colonial e neocolonial — entre Norte e Sul globais.
Com coragem intelectual, Lamrabet aborda tópicos durante muito tempo considerados tabus: poligamia, o valor probatório do testemunho feminino, herança, o uso do véu, a suposta submissão das esposas, casamentos inter-religiosos e o acesso das mulheres a cargos religiosos. Sua leitura aponta que muitas normas discriminatórias não derivam do espírito do Alcorão, mas de uma exegese patriarcal e misógina.
Essa virada exegética é particularmente relevante para o desafio da integração entre o mundo islâmico e as sociedades ocidentais. Ao deslocar a questão da igualdade de gênero do terreno do dogma para o campo da interpretação, o feminismo islâmico oferece um caminho de emancipação que escapa tanto ao paternalismo ocidental quanto ao reacionarismo religioso.
Do ponto de vista geopolítico e cultural, há também limites claros à eficácia de intervenções externas. O roteiro oculto da transformação social não se impõe por decretos exógenos: impõe-se por debates internos, por reescrituras hermenêuticas que reframeiam identidades e memórias. Em outras palavras, a mudança desejada — aquela que permanece — nasce de dentro para fora, como um espelho do nosso tempo que reflete e altera quem o olha.
Em última instância, observar o movimento das mulheres no Irã através das lentes de Asma Lamrabet é reconhecer que o conflito entre tradição e igualdade não é binário nem irreconciliável. É, antes, um filme em andamento, onde a semiótica do viral e a história íntima se encontram e reconstroem o enredo coletivo. E entender esse enredo é condição necessária para qualquer solidariedade responsável.






















