Por Chiara Lombardi — Bao recupera nas imagens a delicadeza do livro que virou caso editorial: Il suo odore dopo la pioggia, de Cédric Sapin-Defour, agora reescrito pelo traço do espanhol José Luis Munuera em uma graphic novel que traduz em páginas coloridas o afeto entre homem e animal.
Em 136 páginas a cores, o leitor percorre a trajetória de Cédric e do seu bovaro bernês Ubac, uma convivência que se estende por uma década e que ultrapassa a matéria — como se o instinto canino puxasse o autor para uma outra realidade, um reservatório de memórias e sentidos. Do antes da chegada do cão, com a preparação dos espaços físicos e mentais, até o momento do adeus, o relato conserva uma simplicidade tão poderosa que ressoa como um espelho do nosso tempo.
A força do projeto está na aliança entre palavra e imagem: o romance evocava sensações, a graphic novel as materializa. Munuera reconstrói olhares, silêncios e gestos que falam mais alto que frases — e o fazem com amplas vistas das montanhas e closes sensíveis aos detalhes cotidianos. É nessa alternância de planos que a narrativa encontra seu ritmo, modulando ternura, nostalgia e perda como notas de uma mesma partitura.
O cheiro da chuva — título e motivo simbólico — ganha nova ressonância quando vemos em cor as pequenas rotinas que tornaram-se essenciais a Ubac. Gesto que para nós parece mínimo, para ele significa o mundo; e essa diferença de escala é, no fundo, a lição do livro e do quadrinho: aprender a ver além do utilitário, acolher uma presença que ensina outra forma de existir.
Publicada por Bao (já conhecida por apostar em adaptações que valorizam o diálogo entre literatura e imagem), esta edição mantém a potência emocional do texto original, mas amplia seu alcance sensorial. As páginas funcionam como um cenário de transformação em que a memória — muitas vezes silenciosa — encontra tradução visual, tornando-se palpável e imediata.
Como analista cultural, vejo nesta transposição para a linguagem dos quadrinhos um reframe do real: não se trata apenas de ilustrar uma história triste, mas de interrogar o lugar do animal nas nossas narrativas, o papel dos rituais domésticos e a maneira como lembramos. A obra convida a uma contemplação quase cinematográfica, onde cada quadro é um enquadramento emocional, e onde o amor entre humano e cão opera como roteiro oculto da sociedade, um eco cultural que nos devolve o sentido do vínculo.
No fim, tanto o romance quanto a graphic novel funcionam como catalisadores de emoções puras, lembrando que algumas ligações são primordiais e transformadoras: um afeto que muda vidas e reescreve a compreensão do que significa amar e perder.


















