Por Chiara Lombardi — Em um mundo onde a tela se comporta como um espelho do nosso tempo, o novo ensaio de Stefano Machera, publicado pela editora Franco Angeli, convida a uma reflexão que vai além do tecnicismo: trata-se de mapear como a inteligência artificial reconfigura o valor econômico da vida digital e, com isso, redefine o que entendemos por cidadania digital.
No debate antigo — e agora intensificado pela adoção massiva da IA — há um aspecto muitas vezes subestimado: os benefícios econômicos diretos de serviços oferecidos a custos quase zero. Machera, que já havia antecipado possibilidades transformadoras da IA nos seus primórdios, retoma o tema em A renda de cidadania digital (Il reddito di cittadinanza digitale), propondo uma análise sobre “como a inteligência artificial gera valor econômico para todos”.
O ponto de partida é simples e revelador: para usufruir desses ganhos, o “todos” precisa primeiro saber que pode usufruir — e elevar sua experiência além das mensagens no WhatsApp ou dos posts nas redes. Segundo o autor, cerca de metade dos italianos já se coloca fora dessas possibilidades. Não é, em primeiro lugar, uma questão de dispositivo: um celular barato abre as portas desse universo. É sobretudo uma questão de direito de acesso e de consciência da própria identidade digital.
Machera define a cidadania digital como um conceito elástico: pode ser delimitada territorialmente (serviços públicos nacionais), em nível supranacional (como a densa legislação europeia) ou assumir contornos globais. O núcleo dessa cidadania, porém, repousa sobre uma questão de identidade.
Retomando a velha tensão entre anonimato e responsabilidade — anônimo sim, anônimo não — o autor defende uma solução intermediária: uma identificação “certa” dos usuários, mas mediada por um serviço externo às plataformas. Em outras palavras, sem eliminar a possibilidade de interações cotidianas que preservem certa privacidade, deve existir um mecanismo que deixe vestígios recuperáveis pelas autoridades em caso de infrações ou crimes.
Este ponto nos coloca diante do roteiro oculto da sociedade contemporânea: o equilíbrio entre vigilância e liberdade. O modelo chinês de controle digital está aí como advertência, enquanto a selvageria das redes exige instrumentos que tornem os “leões de teclado” mais accountable. Para Machera, a chave está na reconhecibilidade — para existir como sujeito de direitos e deveres, é preciso ser reconhecível.
Concluindo, o autor elabora uma lista não exaustiva das fontes de renda vinculadas à cidadania digital, propondo um novo cenário de transformação onde a economia digital se entrelaça com direitos civis e identitários. É um convite para pensarmos a tecnologia não apenas como ferramenta, mas como um ator social com impacto direto na distribuição de valor — o verdadeiro reframe da realidade em que vivemos.
Como quem observa um filme premiado em um café de Milão, Machera nos lembra que o entretenimento e a utilidade digital nunca são apenas superfície: têm roteiro, personagens e consequências. Cabe a nós, espectadores e cidadãos, decidir se queremos apenas assistir ou participar do próximo ato.






















