Roma, 24 de janeiro de 2026 — Em um palácio discretamente aninhado atrás da famosa Via Veneto, realizou-se o último encontro do Salotto di Cadmo ed Armonia, parte do ciclo “Salotti, spicchi di storia”. A noite abriu-se ao som refinado dos músicos do Conservatorio di Santa Cecilia — Edoardo Porena (também liutaio), Giulia D’Alessandro e Beatrice Olivieri — um prelúdio que funcionou como ponte entre tradição e debate contemporâneo.
A anfitriã, a advogada Carlotta Ghirardini, já fundadora do histórico Salotto Letterario Tevere de Roma, conduziu a sessão introduzindo a abordagem histórica do Conte Carlo Piola Caselli sobre a genealogia dos salotti italianos. As palavras do conde teceram uma narrativa que ligou as práticas de sociabilidade aristocrática à formação de ecossistemas culturais, num verdadeiro reframe em que o salão funciona como espelho e roteiro oculto da sociedade.
A moderadora recordou também o recente Gala do 148° aniversário do Istituto Nazionale per la Guardia d’Onore alle Reali Tombe al Pantheon, ocasião em que Sua Altezza Reale Emanuele Filiberto di Savoia agraciou o conde com uma honorificenza. Entre os presentes figuravam o Cav. Giovanni Duvina, presidente da Consulta dei Senatori del Regno, e Francesco Garibaldi Hibbert, descendente de Anita Garibaldi, cujo envolvimento nos próximos encontros foi anunciado.
O público do salão incluiu ainda os Marchesi del Gallo di Roccagiovine, descendentes de Giulia Bonaparte, e foi recordado o hábito dos salottieri de reunir-se no Castello di Mandela — lugar amado por Orazio ao ponto de preferi-lo à corte de Augusto — onde se tomava café nas mesmas xícaras que pertenceram a Giulia. Foi ali, no castelo, que o Salotto di Parigi foi transplantado para Roma após a batalha de Sedan e o exílio de Napoleão III, um exemplo vivo de como a sociabilidade aristocrática migra e reconstrói memórias.
A historiadora Antonietta Angelica Zucconi, ex-bibliotecária da Universidade La Sapienza e especialista no período napoleônico, trouxe uma perspectiva erudita sobre os Napoleonidi e a centralidade dos salotti na circulação de ideias. Em seguida, Dominique Baracchi Tua di Paullo explorou os salões literários franceses do século XIX, estabelecendo conexões entre as práticas de sociabilidade europeias e a formação de redes culturais transnacionais.
A Baronessa Elena Scammacca del Murgo, escritora e pesquisadora da primeira onda de emigração russa para a Itália, acrescentou camadas de memória migrante ao debate, evocando trajetórias pessoais e coletivas que atravessam fronteiras e registros estéticos.
Ao centro da discussão daquela noite esteve, porém, o encontro entre IA e arte. Intelectuais e especialistas locais discutiram como a inteligência artificial reconfigura autoria, curadoria e patrimonialização do sensível. Houve consenso sobre a necessidade de ler a IA não apenas como ferramenta, mas como agente que refrata valores culturais: um espelho do nosso tempo que impõe perguntas éticas sobre memória, autenticidade e o papel dos salotti como guardiões — agora em meio a um cenário de transformação digital.
Ao longo da noite, referências às salas históricas de Roma enriqueceram o debate: a Sala dei Papi no Convento dei Domenicani em Piazza della Minerva — onde Casos como o de Galileu foram sussurrados aos corredores — e o Pantheon, com suas camadas de memória ligadas a figuras como Caterina de Siena e o pintor místico Beato Angelico. Essas alusões funcionaram como contraponto material às especulações sobre redes neurais e algoritmos: a herança tangível frente ao futuro artificial.
Como observadora cultural, afirmo que o que presenciamos nesses salotti é mais do que um encontro erudito; é um microcosmo onde a Europa contemporânea negocia identidade, memória e inovação tecnológica. O debate sobre IA e arte nos salotti romanos revela um roteiro oculto: preservação e reinvenção caminham juntas, e a conversa pública sobre tecnologia só ganha profundidade quando ancorada em uma genealogia histórica e em lugares que continuam a ser, por excelência, laboratórios de significado.
O ciclo “Salotti, spicchi di storia” segue anunciando novos encontros, prometendo manter vivo o diálogo entre o passado humano e o futuro artificial — um diálogo que, como toda boa narrativa, exige curiosidade sofisticada, senso crítico e a elegância de quem sabe escutar as vozes do tempo.
















