Em uma cerimônia que soou como um prelúdio dos prêmios de março, Hamnet — a comovente reinterpretação da história íntima de William Shakespeare — conquistou o Golden Globe de melhor filme dramático. A vitória indica que a adaptação de Chloé Zhao do romance premiado da norte-irlandesa Maggie O’Farrell, com roteiro assinado pela própria Zhao em parceria com a autora, tem chances reais na corrida ao Oscar.
O filme, que reconstrói de modo romanesco a morte do filho de Shakespeare, Hamnet, parte da hipótese sensível de que essa perda teria inspirado a criação de Amleto. Mas o núcleo dramático do longa é outra figura: Agnes, a mulher de William — interpretada por Jessie Buckley — uma presença quase sobrenatural cuja dor diante da morte do filho transforma-se em eixo do enredo. Buckley foi premiada com o Golden Globe de melhor atriz em filme dramático por essa interpretação contundente, enquanto Paul Mescal recebeu a indicação a melhor ator coadjuvante pelo papel de Shakespeare.
Importante observar a particularidade do Globo de Ouro: por dividirem o prêmio de melhor filme em duas categorias, alguns títulos de peso ficaram fora dessa disputa específica. Obras como Una battaglia dopo l’altra e Marty Supreme não concorreram na mesma categoria que Hamnet — o que não as impede de serem consideradas fortes candidatas ao Oscar quando as nomeações forem anunciadas.
Além de Hamnet, a noite pertenceu a outras narrativas que ecoaram no zeitgeist cultural. A minissérie britânica Adolescence foi um dos grandes destaques, conquistando quatro Globes — incluindo melhor minissérie, melhor ator protagonista, melhor atriz coadjuvante e o jovem Owen Cooper (16 anos) reconhecido como melhor ator coadjuvante. Já Una battaglia dopo l’altra liderou em indicações, com nove nomeações e quatro vitórias, entre elas a de melhor comédia.
Em outra surpresa que redesenha expectativas, Leonardo DiCaprio não levou o prêmio de melhor ator — a estatueta ficou com o jovem Timothée Chalamet por Marty Supreme, superando nomes como DiCaprio e George Clooney. Essas escolhas mostram um cenário de transição, onde vozes e narrativas mais jovens ganham destaque, ao mesmo tempo em que cinema histórico e literário, como Hamnet, reafirma seu espaço por meio de uma sensibilidade contemporânea.
Como analista cultural, vejo em Hamnet não apenas uma adaptação fiel ao drama literário, mas um espelho do nosso tempo: um exame sobre luto, memória e as formas femininas de resistência que refilmam a história em primeira pessoa. A opção por colocar Agnes no centro é um reframe potente — é como deslocar a câmera do cânone para o campo íntimo, revelando o roteiro oculto da sociedade, onde dor e criação se entrelaçam.
Se o Golden Globe costuma antecipar tendências, a vitória de Hamnet confirma que narrativas históricas com recortes íntimos e autorais têm apelo junto à academia e ao público. Resta ver como essa trajetória se desenrolará rumo ao Oscar, mas o filme de Zhao e O’Farrell já deixou sua marca: uma obra que funciona como reflexo cultural e, ao mesmo tempo, como pequeno tratado sobre a perda e a rememoração.






















