Depois de duas décadas marcando gerações, Gruffalò volta a ocupar o palco dos livros infantis — e desta vez traz uma presença familiar que promete alterar o roteiro do bosque: a Nonna Gruffalò. A notícia foi anunciada por Julia Donaldson no programa Today da BBC Radio 4, encerrando anos de silêncio sobre um terceiro capítulo que, até então, permanecia guardado como um esboço no roteiro da autora.
Donaldson revelou o título e um fragmento da nova história: “Um dia o Gruffalò disse a sua filha: ‘A nonna Gruffalò está vindo morar conosco’”. Poucos detalhes adicionais foram divulgados, mas já se sabe que o livro chegará em versão impressa e em audiobook em 10 de setembro. A nova entrada reforça a longevidade de um universo narrativo que mistura rima, ritmo e uma sensibilidade que fala tanto às crianças quanto aos adultos que revisitamlembranças.
Para as ilustrações, Axel Scheffler volta a colaborar com a autora — e sua reação traduz a surpresa de quem acompanha uma obra em transformação: “Digo há mais de vinte anos que não haverá um sequel, e isso me ensinou a nunca dizer nunca. Foi uma surpresa total, mas Julia inventou uma história tão maravilhosa que me entusiasmei”, contou o ilustrador.
O primeiro Gruffalò foi publicado em 1999, seguido cinco anos depois por O Gruffalò e sua filhinha, e ambos compõem uma fábula rimada sobre um ratinho astuto que percorre um bosque repleto de predadores até encontrar a criatura fantástica que dá nome à saga. Juntos, os dois volumes venderam mais de 18 milhões de cópias e foram traduzidos para 115 línguas — números que transformaram a criatura em um verdadeiro espelho cultural do que as narrativas infantis podem realizar.
Donaldson explicou que a ideia para este terceiro livro esteve guardada por quase vinte anos. A mudança de perspectiva pessoal — ela mesma tornou-se avó — e o uso dos primeiros dois livros em iniciativas de alfabetização, como o programa Early Words Matter, do National Literacy Trust, foram determinantes para tirar a história do papel. “Sentia que precisava ver se conseguia transformá-la em uma história realmente satisfatória. Para minha surpresa, consegui”, disse a autora.
O legado do Gruffalò também passou pelo cinema: em 2009, a história original virou um curta animado indicado ao Oscar, com vozes de James Corden, Rob Brydon e Helena Bonham Carter, e exibido pela BBC One. Essa adaptabilidade é parte do que faz da série um fenômeno — um roteiro oculto que atravessa mídias e gera conversas sobre medo, astúcia e laços familiares.
Como analista cultural, vejo em Nonna Gruffalò não só a continuação de uma fábula querida, mas um reframe sobre envelhecimento, memória e transmissão afetiva nas histórias infantis. A chegada da avó ao núcleo familiar do monstro-pai pode oferecer ao leitor infantil e ao adulto um espelho do nosso tempo: famílias que se reconstroem, afetos que reordenam papéis e uma literatura infantil que não teme acrescentar camadas ao seu legado.





















