Por Chiara Lombardi — Há um pequeno corte no roteiro público que revela mais sobre a cena cultural do que sobre as pessoas envolvidas. Em declarações que circularam nas redes, Giancarlo Giammetti, histórico sócio e ex-companheiro do estilista Valentino, reagiu às observações feitas por Brunello Cucinelli sobre o funeral do mestre da moda italiana. A controvérsia, breve mas simbólica, ilumina a semiótica de uma indústria onde imagem, memória e protocolo se entrelaçam como tecidos num ateliê.
Segundo Giammetti, em uma história publicada no Instagram, Cucinelli teria afirmado que Valentino o chamava quando estava na boutique para pedir um sconto — um relato que, para Giammetti, não corresponde à intimidade real entre os dois. “Valentino non lo ha mai conosciuto né chiamato“, disse ele, e completou: “Io non l’ho neanche visto al funerale… forse era troppo occupato a parlare con la stampa“. Em tradução livre e tom seco: Giammetti insiste que não havia proximidade e que não percebeu a presença de Cucinelli no serviço fúnebre.
Do outro lado, o empresário de cashmere, amplamente reconhecido como o “rei do cachmere“, contou à imprensa que Valentino vestia peças de sua casa e que muitas vezes pedia desconto quando comprava na loja: “Ele dizia, ‘você pode me dar um desconto?’ E eu respondia: ‘Mestre, para mim é uma honra'”. Ainda segundo Cucinelli, a participação no funeral foi um momento sereno: reconhecer a vida plena de alguém que superou os 90 anos, segundo ele, transforma o rito em celebração em vez de lamento. Ele também colocou Valentino, Armani e Versace no panteão dos pais da moda italiana.
Há aqui um jogo de reflexos: o que é lembrança pública e o que permanece íntimo? A forma como os protagonistas narram os fatos funciona como um espelho do nosso tempo — uma cena curta que nos diz sobre laços afetivos, performatividade e os pequenos gestos que se tornam narrativa. A menção ao pedido de desconto parece quase uma micro-cena cinematográfica; prova que, mesmo entre titãs da moda, persiste uma linguagem de cortesias e favores que extrapola o consumo.
Para o observador cultural, a troca de declarações é mais que um rumor: é um fragmento do roteiro oculto da sociedade da moda. Revela como a memória de uma figura titular, como Valentino, é constantemente remarcada por testemunhos concorrentes, e como o aparato midiático atua como platéia e editor simultaneamente.
Em última instância, o episódio sublinha algo que a história da moda já disse várias vezes: as narrativas oficiais sobre grandes nomes são compostas por palcos múltiplos — ateliers, boutiques, funerais e feeds — e cada performance altera a percepção coletiva. E, como em um filme bem dirigido, restam para nós as imagens, as falas e a curiosidade sofisticada de interpretar o que ficou fora de cena.





















