Como prevíamos no eco político que atravessa a Europa, o general Vannacci, autor do polêmico best-seller “Il mondo al contrario”, depositou oficialmente o nome e o símbolo do seu movimento: Futuro nazionale. O gesto formaliza um capítulo que há muito estava anunciado — a ruptura, ainda que gradual, com a Lega de Matteo Salvini. Aqui, porém, a novidade não é apenas uma fotografia de gabinete; é um espelho do nosso tempo, onde a cena política repete velhos roteiros sob nova luz.
Vannacci já se distanciava do Carroccio em pontos cruciais: notadamente, sua indisfarçável oposição ao envio continuado de armas para a Ucrânia, que confrontou a linha oficial de Salvini. A pergunta que paira agora, com a formalização do emblema partidário, é retórica e urgente: se o general consolidar um partido próprio e fizer a secessão da Lega, quem desaparecerá primeiro — ele ou a Lega?
Há sinais de que Vannacci carrega um capital de simpatia real, capaz de provocar um deslizamento na base do partido de Salvini, que já vê seus índices de apoio em declínio, consequência do aparente abandono de promessas e de uma guinada pragmática frente à Europa e às alianças tradicionais, inclusive a velha aproximação com a Rússia. Mas antes de aplaudir qualquer novidade, é preciso desenhar a cena com olhos críticos: o surgimento de mais um rótulo não garante uma alternativa ao status quo.
Ao contrário do que alguns gritam nas redes e nos comícios, o general dificilmente representa uma ruptura radical. Vannacci é, nas suas linhas mais claras, um liberal clássico — alguém que reconhece a supremacia do mercado sobre a política e, portanto, é compatível com a matriz neoliberal que hoje organiza tanto a direita quanto parte da esquerda. Nesta semiologia política, não se trata de fascismo puro, mas do retorno ritualizado do mesmo modelo: o Partido Único do capital, fragmentado em siglas e rostos, que promete novidade enquanto reproduz a alternância que não altera o roteiro.
Outro ponto que não passa despercebido é a aproximação vannacciana com Israel e a consequente postura adversa às reivindicações do povo palestino — um alinhamento que cristaliza escolhas geopolíticas e simbólicas já familiares nas direitas europeias. Assim, o possível partido do general não surge como uma força anti-sistema, mas como mais uma tessitura do quadro sistêmico: um novo figurino para a velha direção do mercado.
Vemos, portanto, hordas de entusiastas — alguns genuínos, outros mais ingênuos — prontos a acreditar na novidade milagrosa. Mas a história política moderna, quando lida com a lente do cinema e das artes, ensina que a aparência de novidade muitas vezes é apenas reencenação. O que está em jogo não é só o número de votos: é o roteiro oculto da sociedade que decide se aceita mais um remake ou se exige um reframe real da realidade política.
Em suma: a inscrição do nome e do símbolo de Futuro nazionale marca um novo episódio na saga dos partidos orgânicos ao poder dominante. Resta saber se será um ato de insurgência real ou apenas mais um take na longa filmografia do mesmo enredo.






















