Por Chiara Lombardi — Em tempos em que a verdade se fragmenta em feeds e manchetes efêmeras, reemerge a voz de um homem cuja experiência é um espelho do nosso tempo. O cardeal vietnamita François‑Xavier Nguyên Van Thuân tornou-se referência não apenas por sua fé, mas por um ensinamento que reverbera contra a desinformação: «O Senhor diz: ‘Eu sou a verdade’. Não disse que o jornal ou a televisão são a verdade». Essa observação, proferida com sentido figurado, funciona hoje como um aviso sobre as distorções das fake news.
Nguyên Van Thuân morreu em Roma no dia 16 de setembro de 2002, aos 74 anos. Sua biografia é marcada por uma fé forjada na provação: nomeado arcebispo de Saigon em 1975 por Paulo VI, foi preso com a imposição do novo regime comunista. Permaneceu detido por treze anos — até 21 de novembro de 1988 — sem julgamento, nove deles em isolamento, celebrando a missa diariamente e preservando a esperança como ato de resistência.
Do confinamento saíram fragmentos de pensamento que o cardeal registrou em pequenos papéis: mais de 1.001 reflexões que, clandestinamente, alcançaram o Ocidente por meio de vietnamitas que escaparam como boat people. Esses testemunhos transformaram‑se no livro‑testamento publicado em 1992, Il cammino della speranza, obra que atravessa o tempo como um roteiro oculto da resistência espiritual e ética.
Agora, a memória do cardeal volta a ganhar palco formal. O Dicastero para o Desenvolvimento Humano Integrale — do qual Nguyên foi presidente entre 1998 e o ano de sua morte — promove um encontro no próximo dia 25 de março, das 16h às 17h30, na Sala dei Trattati do Palazzo Apostolico, em Piazza San Giovanni in Laterano 6a. Entre os convidados, estará sua irmã, Elisabeth Nguyên Thi Thu Hông. O evento marca os 50 anos da redação daqueles escritos que se tornaram farol para muitos.
A causa de beatificação do cardeal avança: ele foi declarado Venerável por papa Francisco em 4 de maio de 2017, após o encerramento da fase diocesana em julho de 2013. Falta apenas mais um passo para a beatificação — caso não seja reconhecido como mártir, será necessário o reconhecimento de um milagre atribuído à sua intercessão. A trajetória do processo segue a escada tradicional: Servo de Deus, Venerável, Beato e, finalmente, Santo.
Mais do que ritos e procedimentos, a história de Nguyên Van Thuân é um estudo sobre como a fé e a memória se entrelaçam com a esfera pública. Sua advertência sobre a verdade — que não se confunde com manchetes — é um convite a repensar o papel das instituições mediáticas e pessoais diante do fluxo constante de informações. Em outras palavras, um reframe cultural: se a verdade é um farol, as redes sociais e os meios não são necessariamente sua encarnação.
Enquanto a Igreja avalia os passos formais da santidade, o cardeal permanece um espelho cultural — um testemunho que nos obriga a perguntar não apenas o que acreditamos, mas por que acreditamos. A sua vida, marcada pela esperança e pela resistência à opressão, funciona como um eco cultural que desafia o roteiro da desinformação e propõe outro enredo: aquele em que a dignidade humana e a busca pela verdade recuperam o centro do palco.






















