Em um gesto que mistura mecenato corporativo e responsabilidade cultural, FNM Group assinou a conclusão do restauro e passou a exibir ao público a escultura “Santo barbuto con Libro” na sua sede de Piazzale Cadorna 14, em Milão. A peça, datada da metade do século XV e esculpida em mármore de Candoglia, retorna ao circuito público graças ao programa “Adotta una statua”, promovido pela Veneranda Fabbrica del Duomo.
O restauro cobriu processos de limpeza, conservação e consolidação do material, ações financiadas por FNM Group no quadro do projeto que, desde fevereiro de 2020, vem mobilizando empresas e cidadãos para sustentar a salvaguarda do patrimônio escultórico da Catedral de Milão. Em consonância com a Soprintendenza Archeologia, Belle Arti e Paesaggio da Città Metropolitana di Milano, a iniciativa concede, em regime de empréstimo temporário, obras removidas por razões de conservação, em troca de contribuições destinadas aos incessantes trabalhos do Duomo.
A estátua representa um homem idoso, com longa barba bipartida, trajando a cappa monástica que envolve a figura também na parte frontal. Em uma mão, segura um livro aberto — atributo iconográfico associado a santos e profetas — e apoia-se sobre um basamento circular que remete à linguagem escultórica humanística do período sforzesco. A ausência de inscrições impede uma atribuição precisa do autor; suas dimensões e características sugerem que, originalmente, poderia ter ocupado um altar interno do Duomo, tendo sido posteriormente deslocada para o exterior, mas protegida das intempéries.
Curiosamente, a peça esteve exposta em estado de degradação na feira internacional de artesanato EXEMPLA 1976, em Munique — uma lembrança pungente do trabalho contínuo das equipes da Veneranda Fabbrica del Duomo em conservar e recontextualizar bens artísticos que são, simultaneamente, relicários e espelhos do nosso tempo.
A nova escultura substitui a estátua oitocentista de San Abdon, que havia sido visível ao público desde junho de 2022, quando FNM Group passou a integrar o projeto. A revelação oficial ocorreu em cerimônia pública que contou, entre os presentes, com o presidente da Região da Lombardia, Attilio Fontana, saindo como um reencontro simbólico entre cidade, patrimônio e atores privados engajados na tutela cultural.
Este episódio é, em minha leitura, mais do que a manutenção de um objeto: é um reframe da memória coletiva. Quando uma corporação decide financiar a conservação de uma escultura medieval, ela participa do roteiro oculto que define quais narrativas permanecem acessíveis à cidadania. A peça em mármore de Candoglia volta a ser vista por viajantes e passantes que cruzam Piazzale Cadorna, transformando o fluxo cotidiano em uma galeria urbana — um pequeno teatro onde se ensaia a continuidade entre passado e presente.
Para a cidade e para quem observa a cena cultural com a curiosidade sofisticada de quem discute cinema e patrimônios em um café em Milão, a iniciativa reafirma que a preservação é também um ato de política simbólica. O programa “Adotta una statua” aparece, assim, como um mecanismo pragmático e poético de financiamento: pragmático ao garantir técnicas de conservação adequadas; poético ao permitir que esculturas históricas continuem a dialogar com a cidade moderna, servindo de espelho e de lição estética.
Documentar, conservar e exibir — esses são os verbos que sintetizam o trabalho da Veneranda Fabbrica del Duomo, apoiada por atores privados como FNM Group. E neste reencontro público-com-arte reside um lembrete: patrimônio não é apenas passado petrificado, é recurso vivo que reconfigura identidades e abre um palco para a memória coletiva.






















