Svetlana Zakharova teve a apresentação marcada no Teatro del Maggio Musicale Fiorentino temporariamente suspensa. O ballet “Pas de deux for toes and fingers”, com a célebre bailarina, ao lado do violinista Vadim Repin, estava previsto para os dias 20 e 21 de janeiro de 2026, mas o teatro informou que, devido ao perdurar das tensões internacionais que poderiam comprometer o bom êxito do espetáculo, a programação foi adiada.
O comunicado oficial do Teatro do Maggio explica que a decisão visa preservar a segurança e o clima adequado para a apresentação, ressaltando o caráter temporário da suspensão. Em termos práticos, o teatro abriu canais para reembolsos e orientou espectadores sobre os procedimentos: assinantes podem solicitar o reembolso até 31 de janeiro de 2026 na bilheteria (segunda a sexta, das 12h às 18h; sábado, das 10h às 13h) ou por e‑mail, enviando dados bancários para [email protected]. Compras feitas online ou por telefone serão creditadas automaticamente no cartão utilizado, conforme os prazos dos circuitos bancários, e quem comprou na bilheteria deverá apresentar o ingresso intacto.
O episódio se insere numa sequência de medidas culturais e decisões administrativas que vêm afetando artistas com vínculos, reais ou alegados, com a Rússia. Recentemente, a Fundação Arena de Verona cancelou o concerto do barítono Ildar Abdrazakov, após acusações de proximidade com Putin feitas pela Fundação Anti‑Corrupção (FBK) de Navalny — caso que mereceu o endosso do ministro da Cultura, Gianluca Giuli, que declarou-se contrário à propaganda.
Também foi notório o cancelamento do concerto do maestro Valery Gergiev na Reggia di Caserta, outra medida apoiada pelo ministério, que reacendeu debates sobre critérios e limites entre segurança, política e cultura. Críticas públicas, como a do presidente da região Campânia, Vincenzo De Luca, ressaltaram o que definiram como tratamento desigual em relação a outras crises internacionais, evocando silêncio quando o foco é o conflito em Gaza.
A embaixada russa em Roma reagiu com dureza ao anúncio da suspensão, qualificando a decisão como guiada por submissão a governos estrangeiros e às narrativas de Kiev: “Succubi di Zelensky e dell’Europa”, afirmou a representação diplomática, numa declaração que acendeu ainda mais o caráter político do caso. É, portanto, um espelho do nosso tempo: a cultura transformada em campo de disputa e simbologia geopolítica, onde o palco vira arena e o público, por vezes, refém de um roteiro oculto da sociedade.
Para além do espetáculo em si, a suspensão de Zakharova levanta questões sobre liberdade artística, responsabilidade institucional e o lugar da arte em momentos de crise. Como observadora cultural, sinto que esses episódios exigem olhar crítico: a arte pode — e talvez deva — dialogar com a história, mas também corre o risco de ser instrumentalizada como instrumento de cancelamento ou censura. O caso coloca em relevo a necessidade de critérios transparentes e de um debate público que não se limite ao veredicto emocional, mas que busque entender as ramificações simbólicas e práticas de cada decisão.
Enquanto a data de reposição não é anunciada, o público e os assinantes do Maggio esperam esclarecimentos e a devolução justa dos valores pagos. A suspensão de um espetáculo que reuniria talento e repertório ilustra como o palco cultural, hoje, reproduz o cenário de transformação política: as luzes se apagam por instantes, mas a narrativa e o debate seguem em cena.


















