Por Chiara Lombardi — A chegada de Donald Trump ao poder reacendeu, com força e surpresa, o debate sobre a ordem mundial: teríamos testemunhado o fim da pax americana? Essa hipótese circula como um espelho partidas em praça pública — reflexo imediato de medos e ansiedades ocidentais. Mas, segundo Amitav Acharya, Distinguished Professor na American University de Washington, D.C., e ex-presidente da International Studies Association, a leitura dominante é limitada e exige um reframe: o declínio do Ocidente pode não ser apenas um drama, mas uma oportunidade para repensar a governança global.
No ensaio História e futuro da ordem mundial (Storia e futuro dell’ordine mondiale, Fazi Editore, 529 págs.; €24), Acharya propõe uma visão longa da História para descolar a nossa compreensão do presente das lentes estritamente ocidentais. Ao revisitar cerca de cinco mil anos de civilização — das cidades da Sumer e do Egito, passando pela Índia, a Grécia, até as civilizações da Mesoamérica e os califados —, o autor demonstra que a ideia de um ordem mundial não nasceu com a Europa ou com os Estados Unidos.
Acharya identifica três momentos clássicos de hegemonia que a historiografia ocidental costuma enunciar: a pax romana, o domínio britânico sobre os mares no século XIX e a chamada pax americana do pós-Segunda Guerra. Mas, alerta ele, reduzir a experiência humana a esses três episódios é reduzir também a imaginação política contemporânea: tal visão sustenta o temor do vazio e do caos à medida que a influência do Ocidente parece declinar.
Para o autor, a crise do Ocidente — alimentada por guerras regionais, crises econômicas, instabilidade política e a emergência de novas potências, sobretudo a China — não implica necessariamente colapso. Pelo contrário, pode abrir caminho para uma multipolaridade mais equitativa, onde diferentes centros de poder compartilham responsabilidades e legitimidade. Em seu roteiro, cooperar com essas novas potências é menos um gesto de acomodação do que uma estratégia para forjar um ordem compartilhada.
Na leitura de Acharya, o diagnóstico exige uma mudança de perspectiva: reconhecer que o Ocidente jamais foi o único arquiteto das instituições internacionais de cooperação. Esse reconhecimento implica não só humildade política, mas também uma reimaginação dos mecanismos de governança global, um convite a construir novas narrativas diplomáticas que espelhem a distribuição real de poder e interdependências do século XXI.
Há, na abordagem do autor, um eco cultural que lembra o roteiro oculto da sociedade: as instituições e normas surgem, evoluem e às vezes se recombinam em função de múltiplas memórias e experiências históricas. O que Acharya propõe é, portanto, uma leitura que traz a história como ferramenta ativa de design de futuro — uma semiótica do viral geopolítico que nos impele a participar da escrita de um novo contrato internacional.
Mais do que uma crônica do declínio, o livro é um convite sofisticado à ação política e intelectual: aprender com o passado para cooperar melhor no presente e, assim, moldar um cenário de transformação que seja menos centrado e mais plural. É um chamado pragmático e ético para que o Ocidente — se ainda quiser ser protagonista — aceite dividir o palco sem perder a responsabilidade de construir pontes.
Se o horizonte político aparece hoje em mutação acelerada, a proposta de Acharya oferece um roteiro para enxergar nessa crise uma chance de experimentação: repensar a autoridade, redesenhar a governança e reinventar os instrumentos de solidariedade internacional. No fim das contas, mais do que confirmar o término da pax americana, o diagnóstico abre um espaço crítico para imaginar uma ordem mundial que reflita a pluralidade do nosso tempo.






















