Ferdinand Porsche: um perfil entre invenção e controvérsia
Sai pelas páginas da editora Giorgio Nada uma biografia com tom romanesco que percorre a trajetória de um dos protagonistas da indústria automobilística do século XX. Em “Ferdinand Porsche – Un genio capace di sognare”, a jornalista e caporedatora do TG2 Christiana Ruggeri opta por uma escrita que humaniza figuras históricas e transforma a técnica em narrativa viva.
O livro acompanha a evolução de Ferdinand Porsche desde o nascimento, em 1875, em Maffersdorf (Boêmia), até a morte súbita por infarto em 1951, atravessando vitórias técnicas, ambições empresariais e as sombras do conflito europeu. Ruggeri desenha vários perfis: o jovem silencioso e apaixonado pela mecânica, o técnico ambicioso, o empreendedor visionário e, por fim, o homem marcado por acusações de colaboração com o regime e por meses de prisão no pós-guerra.
No centro desse relato está a ideia de engenharia automotiva como força transformadora do século XX: um verdadeiro espelho do nosso tempo em que mobilidade, indústria e política se entrelaçam. Não por acaso, o livro destaca invenções que anteciparam tecnologias que hoje reconhecemos como de ponta. Em 1899, Porsche já havia se sobressaído na Alemanha com a P1, uma espécie de carro 100% elétrico — vencedor de uma das primeiras corridas em Berlim com 18 minutos de vantagem sobre o segundo colocado.
Ruggeri explora ainda projetos menos óbvios ao imaginário popular associado ao nome Porsche: o engenheiro trabalhou em motores integrados nos cubos de roda e em sistemas de frenagem regenerativa, soluções que soam contemporâneas se vistas como prelúdios das tecnologias elétricas atuais. A progressão técnica é traçada ao longo de décadas: dos modestos 35 km/h da P1 às velocidades extremas alcançadas nos anos 1930 pela monoposto Auto Union P-Wagen, superior nos testes a 400 km/h.
Mas a narrativa não se limita ao brilho das pistas. O livro coloca em foco a criação que transformaria para sempre a imagem do automóvel: a Volkswagen — a “carro do povo” idealizada em 1934 e apresentada a um regime que via na motorização de massas um projeto de modernização. Foi essa aposta técnica e política que aproximou perigosamente Porsche do poder, ainda que sem uma adesão formal ao regime. As consequências vieram após a guerra, quando o projetista foi detido por cerca de 20 meses, em um episódio que Ruggeri contextualiza como resultado das tensões geopolíticas e do desejo ali presente de reconstruir indústrias nacionais valendo-se de conhecimentos técnicos alheios.
Ruggeri também mapeia a relação de Ferdinand Porsche com a Itália, antes e depois do conflito, oferecendo uma leitura que ultrapassa a biografia técnica e busca entender o lugar desse inventor no roteiro oculto da memória europeia. A escolha do formato romanesco é um recurso eficaz: ao transformar peças de engenharia em personagens, a autora permite ao leitor ver o que está em jogo quando tecnologia e poder se encontram.
Como analista cultural, não deixo de ver nessa obra um convite a refletir sobre nossas narrativas de progresso: a história de Porsche é a história de um futuro projetado, fracassos inclusos, que revela a ambivalência do avanço técnico quando imbricado com interesses políticos. É uma leitura que interessa tanto ao fã de automóveis quanto ao leitor que busca entender como o design e a indústria moldam identidades coletivas.
Christiana Ruggeri, com sensibilidade jornalística e visão literária, entrega não apenas uma cronologia de feitos, mas um reframe da realidade automotiva — mostrando que o legado de Ferdinand Porsche continua a vibrar como um motor cujo som ainda define rotas culturais e tecnológicas.






















