Em um gesto que é ao mesmo tempo memória e reinterpretação estética, inaugura-se em Roma, no dia 27 de fevereiro, na sede da Fondazione Carlo Levi (via Ancona 21), a mostra Il popolo lucano di Carlo Levi. Memoria e fotografia di Domenico Notarangelo. Aberta ao público até 17 de abril, a exposição propõe um percurso visual e cultural que costura o pensamento e a obra de Carlo Levi com o olhar fotográfico de Domenico Notarangelo, devolvendo a densidade humana, social e simbólica da Lucania e do mundo camponês do segundo século XX.
A curadoria evidencia o vínculo pessoal, cultural, político e humano que uniu Notarangelo e Carlo Levi ao longo do quinquênio que atravessa 1960 a 1975, culminando na organização dos funerais realizados em Aliano, vila onde Levi foi confinado em 1935/36. Essa passagem histórica funciona, na mostra, como um espelho do nosso tempo: rememorar Levi significa reler uma geografia de sofrimento e resistência que ainda molda identidades regionais e narrativas nacionais.
Um núcleo relevante da exposição é dedicado às imagens captadas por Notarangelo durante a produção do filme Cristo si è fermato a Eboli, dirigido por Francesco Rosi em 1979. O fotógrafo colaborou ativamente na filmagem, instaurando com o diretor e com o ator protagonista Gian Maria Volonté uma afinidade artística e humana que transcende o simples registro: as fotografias funcionam como um making of sensorial, um reframe da realidade que revela o roteiro oculto da obra e o seu compromisso com a representação do território e das suas vozes.
Ao percorrer as paredes, o visitante encontra sequências que articulam retratos, paisagens e detalhes cotidianos, compondo uma semiótica do rural que dialoga diretamente com os escritos de Levi. Não se trata apenas de ilustrar um livro, mas de estender seu campo semântico: a câmera de Notarangelo capta gestos, rituais e objetos que atuam como testemunhas mudas de um tempo marcado pela escassez e pela dignidade.
Enquanto crítica cultural, vejo esta mostra como um exercício necessário de arqueologia afetiva: verificar como imagens e palavras se interseccionam para preservar memórias coletivas, mas também para interrogar a contemporaneidade. O encontro entre a prosa engajada de Carlo Levi e a lente atenta de Domenico Notarangelo é mais que uma retrospectiva — é um convite a ler a Lucania como um palimpsesto, onde camadas de história e representações lutam por visibilidade.
Para quem passa por Roma nestes meses, a visita na Fondazione Carlo Levi é um programa que alinha sensibilidade estética e compromisso histórico, um verdadeiro roteiro cultural que nos lembra que o entretenimento e a memória sempre se espelham mutuamente, e que o cinema e a fotografia continuam a ser ferramentas essenciais para desmontar e remontar o mapa de nossas identidades.






















