Por Chiara Lombardi — Analista cultural para La Via Italia
Há uma fissura cultural que atravessa a forma contemporânea de viver a Epifania e o Natal. Não se trata apenas de um lamento moral nem de simples nostalgia: é uma questão de semântica histórica, de memória simbólica e de reconfiguração ritual. Para entender esse descompasso é preciso voltar à palavra que usamos com tanta leveza: Natal.
O termo vem do latim natalis, ligado ao nascer. Não é apenas um clima, uma playlist ou uma temporada de compras. No sentido originário, o Natal anuncia uma nascimento — uma transformação irreversível que estabelece um antes e um depois. Nas formas vividas hoje, porém, esse acontecimento foi reduzido a um circuito repetitivo: datas previsíveis, decorações padronizadas, mercadorias e emoções programadas. Tudo volta igual, ano após ano. Nada nasce verdadeiramente.


Historicamente, o Natal cristão sempre foi uma proposta perturbadora: a afirmação de que o sentido último da realidade não se assenta sobre o poder, o domínio ou a acumulação material, mas sobre uma virada interior. O Reino que Jesus anuncia é uma porta estreita — uma entrada por onde só passam os corações que se abrem à purificação, ao perdão e à verdade vivida. Em vez de consolo para a ordem estabelecida, o Natal é um convite à transformação radical do sujeito.
O que vemos, hoje, é o oposto: a neutralização dessa carga subversiva por meio da estética, do consumo ritualizado e da reciclagem festiva. O evento tornou-se atmosfera; a ruptura, ciclo; a novidade, tradição previsível. Nesse movimento, elementos folclóricos pré-cristãos — costumes, figuras e ritos locais — se sobrepuseram à narrativa cristã, criando camadas que nem sempre dialogam com o sentido original. A Epifania, por exemplo, foi sendo ressignificada em muitos contextos por imagens e práticas que priorizam a criança, o presente e a alegria imediata, deslocando o foco do acontecimento espiritual.
Paralelamente, a mercantilização selecionou e repaginou símbolos: a figura da Befana, a calza com presentes, e sobretudo o arquétipo global do Babbo Natale foram incorporados a um repertório consumista que transforma oferendas em mercadorias e expectativa em transação. Não se trata apenas de enfeites: trata-se de um reframe cultural que reduz o sagrado ao útil e o ritual à experiência de compra. Assim, o sentido de natalis — a emergência de algo novo e irreversível — é diluído em promoções e rotinas emocionais repetidas.
Do ponto de vista da memória coletiva, essa sobreposição é um espelho do nosso tempo. O folclore pré-cristão não desaparece: integra-se, se metamorfoseia, cria narrativas híbridas. Mas quando a integração é dirigida pelo mercado, o resultado é a perda do horizonte ético e simbólico que embalava essas celebrações. Temos, então, um espetáculo bem-produzido que encanta, conforta e distrai — mas deixa poucas exigências de transformação pessoal.
O desafio cultural que proponho é recuperar a tensão original do Natal sem cair em fundamentalismos nem em reações puristas. É possível reconhecer o valor das tradições e das imagens populares, ao mesmo tempo em que se resgata a dimensão de ruptura e renovação que a palavra natalis carrega. Pensemos nisso como um roteiro oculto: se apenas encenarmos as cenas da festividade, sem enfrentar a mudança interior que a história propõe, o espetáculo continuará belo — mas vazio de consequência.
Em última instância, a questão é também política e estética: que tipo de memória coletiva desejamos cultivar? Preferimos a cómoda repetição ou a experiência — às vezes dolorosa — da novidade que transforma? A resposta não está nas luzes nem nas vitrines, mas na disposição de cada um em permitir que algo nasça. E isso, por definição, não é programável.






























