Chiara Lombardi — A guerra mudou de cenário. Não é mais só campo, tanque e explosão: muitas batalhas contemporâneas se desenrolam dentro das cabeças das pessoas. Enquanto o imaginário público insiste nos fogos de artifício hollywoodianos — armas, exércitos, cataclismos — a luta cotidiana acontece, sobretudo, no íntimo do indivíduo. Este é o cerne da guerra cognitiva, um confronto vertical, silencioso e difuso, que se realiza na relação privada entre população e mídia.
Essa batalha é travada por atores variados — empresas, Estados, grupos financeiros, aparatos de inteligência — que usam a mídia e as tecnologias para cumprir seus objetivos. É sub-reptícia e muitas vezes obscena na sua eficácia: quando o alvo é vulnerável, como uma criança, a ação torna-se moralmente revoltante. Pensar em manipular traços psicológicos infantis — por exemplo, convencê-la de algo que contraria sua identidade — é uma violência que reconfigura trajetórias.
Os algoritmos das grandes plataformas, desenhados para segurar a atenção a qualquer custo, expõem menores a conteúdos extremos. Assim, sabotam mentes — as suas existências — com o consentimento tácito, por vezes inconsciente, dos pais. O adulto que aceita alguns minutos de sossego em troca da integridade emocional do filho talvez pague essa escolha mais tarde no consultório de um psicólogo. Esses são apenas exemplos: os domínios da guerra cognitiva vão do neuromarketing — indução de desejos supérfluos — àquilo que podemos chamar de psicobiopolítica, um repertório de técnicas que exploram afetos e motivações para fins de poder (veja Cattana, Nel velo virtuale, cap. 3).
Por que reagimos tão mal a isso? Uma resposta contundente é que a consciência humana média corre sempre atrás do desenvolvimento tecnológico. Em boa parte, ainda somos consumidores passivos das ferramentas que criamos. Só depois, quando já é tarde, desenvolvemos contornos de domínio crítico. Esse atraso coloca-nos em risco: os “brinquedos” que nos dão prazer hoje são armas sutis amanhã.
A literatura que aborda esse descompasso é vasta. Persson e Savulescu, em Unfit for the Future (2012), propuseram uma solução extrema: uma potencial ampliação moral da espécie por via farmacológica, reduzindo agressividade e riscos de autodestruição. A ideia de “drogarmos” sociedades para diminuir conflitos pode soar nobre em abstração; na prática, levanta questões éticas e estratégicas imediatas. Quem detém o poder não aceitaria voluntariamente perder os meios de dominação. Além disso, como a ficção já nos mostrou — lembre-se de Equilibrium — tentar anestesiar emoções em escala global costuma acabar em rebelião da própria humanidade.
Não creio numa salvação química. O que urge é outra coisa: uma tomada de consciência coletiva e uma resposta institucional que reconheça a nova arquitetura do conflito. Não se trata apenas de regular tecnologia, mas de cultivar literacia digital, fortalecer a educação emocional e desenhar contrapesos democráticos para mecanismos de influência que tornam indecifrável o limite entre persuasão legítima e manipulação.
Vivemos num tempo de intenso materialismo, em que desejos são formatados e transformados em consumo através de técnicas persuasivas. Essa economia do inconsciente alimenta e se alimenta da guerra cognitiva. O desafio é pensar políticas públicas, educação e ética tecnológica como um roteiro — um reframe — capaz de devolver à população a capacidade de ser protagonista de suas escolhas, e não mero espectador de sua própria subjetividade.
Ao olhar para esses fenômenos como um espelho do nosso tempo, percebemos que entretenimento, mercado e poder compõem um mesmo cenário de transformação. A pergunta que nos cabe, então, é: queremos aceitar o roteiro que nos é imposto ou reescrever coletivamente a narrativa?































