Por Chiara Lombardi — Em Dia da Memória 2026, a Shoah volta a ocupar o centro do debate público italiano por meio de uma iniciativa plural e extensa promovida pelos Arquivos de Estado em todo o território nacional. O conjunto de ações pretende transformar documentos e fontes históricas em instrumentos vivos de conhecimento: uma convocação à consciência e à responsabilidade civil, dentro do espelho do nosso tempo e do roteiro oculto da sociedade.
O programa, que reúne mostras, encontros, percursos didáticos e atividades de divulgação, é desenhado para alcançar cidadãos, estudantes e estudiosos, oferecendo ocasiões concretas para refletir sobre as consequências das leis raciais, as vidas quebradas pela perseguição e o papel das instituições na construção — ou na negação — dos direitos.
No sul, o Arquivo de Estado de Avellino apresenta a exposição documental “Il controscritto ebreo. Storie di internati in Irpinia”, que, por meio de fascículos pessoais e carteiras administrativas, reconstrói as vicissitudes dos internados civis nos campos e nos locais de confino da província. São vozes recuperadas de uma memória que durante muito tempo ficou marginalizada — fragmentos que reconfiguram o mapa emocional da região e lançam luz sobre um passado que insiste em nos interpelar.
Em Milão, o Arquivo de Estado promove uma oração cívica com Alessandro Milan, acompanhada por músicas ao vivo de Raffaele Kohler. A partir do encontro casual com uma pietra d’inciampo e com documentos inéditos do acervo, emerge um relato coral de vidas entrelaçadas na cidade durante a Segunda Guerra Mundial: aqui, entre Resistência, memória e a luta pela liberdade, a cidade funciona como cenário de transformação e como espelho de tensões que atravessam o presente.
No Arquivo de Estado de Nápoles, um encontro parte do achado de um fragmento manuscrito do Talmud para refletir sobre a dispersão e a destruição de textos sagrados judaicos ao longo das perseguições históricas. A reutilização de fragmentos de pergaminho nas encadernações de documentos de arquivo é apresentada como traço material de uma memória que, apesar da violência, conseguiu sobreviver.
Em Bari, o percurso intitulado “La Memoria scritta della Shoah” propõe um itinerário rico em documentos, diários e testemunhos conservados nos arquivos da Puglia. O foco recai sobre a experiência dos refugiados judeus que chegaram à cidade no pós-guerra e sobre o valor das fontes arquivísticas como patrimônio compartilhado — um reframe da realidade que também desperta novo interesse no meio acadêmico e cultural.
No noroeste, Turim concentra iniciativas no entrelaçamento entre imagens, biografias e perseguição: um encontro dedicado ao fotógrafo Silvio Ottolenghi, afetado pelas leis raciais, e a mostra fotográfica Seeing Auschwitz, com mais de cem imagens que oferecem um olhar plural — dos carrascos, das vítimas e dos Aliados — sobre o sistema nazista. O caráter divulgativo dessas ações é pensado também para as escolas, numa pedagogia da lembrança.
Por fim, em Roma, o Arquivo de Estado presta homenagem a Ermanno Loevinson, historiador e arquivista vítima da Shoah, com uma iniciativa dirigida especialmente aos estudantes do último ano dos liceus. A ação foi precedida, nos dias anteriores, pela colocação de pietre d’inciampo frente à antiga residência da família — gesto que lembra como a memória deve habitar o espaço urbano e a rotina cotidiana.
Ao colocar os acervos no centro da reflexão, os Arquivos de Estado fazem mais do que guardar evidências: oferecem um convite ao público para ler o passado como um arquivo vivo, onde cada documento é um espelho do nosso tempo e um pequeno roteiro do que fomos capazes de fazer — e evitar. Em uma época em que a informação circula com velocidade e superficialidade, esse trabalho de preservação e mediação é um antídoto necessário contra o esquecimento.
Estas iniciativas lembram que a luta contra o discurso do ódio e a negação da história passa, igualmente, pela capacidade de ouvir documentos e testemunhos. Ao transformar acervos em narrativas públicas, os Arquivos de Estado convidam a sociedade a assumir a memória como bem comum — uma responsabilidade cotidiana que se manifesta tanto nas salas de exposição quanto nas pedras que colocamos nas calçadas.






















