Por Chiara Lombardi — A notícia de um quadro adquirido num mercado de pulgas em Le Mans que teria sido atribuído a Amedeo Modigliani reacende um debate que é, ao mesmo tempo, técnico e cultural: até que ponto uma imagem pode reescrever um capítulo da biografia de um artista e do seu círculo? O colecionador e empresário Paolo Guzzini comprou, há cerca de um ano, uma tela sem atribuição clara. Em 2024 a obra foi inserida no catálogo ragionato por Cristian Parisot, responsável pelos “Archives Legales Modigliani”, que afirma tratar‑se de um retrato de Mario Oddone Cavaglieri e sugere um vínculo entre Cavaglieri e Modigliani.
Mas a interpretação não convence unânimes especialistas. O historiador de arte Victor Rafael Veronesi destaca um nó cronológico difícil de desfazer: segundo a narrativa dos proponentes, a obra estaria datada por volta de 1906, como consta no catálogo de 2024. Contudo, no início de janeiro de 1906 Modigliani mudou‑se para Paris, enquanto documentos reunidos por estudiosos e fornecidos pelo município de Pádua colocam Cavaglieri em Pádua e depois em Veneza até meados daquele ano. Se as datas aceitas estiverem corretas, os dois não teriam tido oportunidade de se encontrar naquele momento — e, como observa Veronesi, qualquer nova documentação que altere essa cronologia deve ser apresentada e debatida abertamente pela comunidade acadêmica.
Uma hipótese alternativa apontada pelo próprio Veronesi é a de uma datação mais tardia — por exemplo 1911 — quando ambos, de fato, aparecem em Paris. Ainda assim, a simples coincidência de espaço não garante um encontro significativo: os dados sobre a viagem de Cavaglieri indicam que se tratou sobretudo de uma jornada de prazer, não necessariamente de uma imersão no circuito artístico parisiense que teria favorecido íntimas conexões com Modigliani.
Na mesma linha, Fabrizio Checchi, historiador de arte e presidente da Fondazione Amedeo Modigliani em Roma, é taxativo: “Do ponto de vista histórico e biográfico, as cronologias documentadas de Amedeo Modigliani e Mario Cavaglieri não se encontram nos tempos e locais indicados. Não existem documentos, cartas, testemunhos, memórias ou fontes de arquivo que atestem uma relação direta entre eles, nem em Veneza em 1906 nem numa fase posterior em Paris.”
Além da cronologia, há um argumento iconográfico: a fisionomia do retratado não coincide com os autorretratos e fotografias conhecidas de Cavaglieri. A presença de bigode na tela distanciaria ainda mais a identificação, já que o pintor padovano costumava aparecer sem barba, raspado.
Esta controvérsia é um espelho do tempo: lembra que o processo de atribuição é um roteiro feito de documentação, estilística, proveniência e, muitas vezes, controvérsia. Um catálogo ragionato tem peso — e responsabilidade — porque ajuda a moldar o cânone; por isso exige rigores de arquivo e um diálogo plural entre especialistas. A implicação não é meramente acadêmica: quando uma obra é associada a um nome como Modigliani, sua leitura pública, mercado e memória cultural são reconfigurados. É aí que vemos o ‹reframe› da realidade que acontece quando um objeto transita do anônimo para o famoso.
Enquanto se espera a publicação e o escrutínio de documentos complementares — se existirem —, o correto é manter a cautela. A hipótese de 1911 merece investigação mais profunda, e qualquer nova prova deverá ser tornada pública para exame crítico. Até lá, a obra permanece no limiar entre o possível e o provável: uma imagem que evocou um encontro que a história, por ora, não corrobora.
Chiara Lombardi é analista cultural da Espresso Italia. Observa como o entretenimento e as narrativas visuais atuam como espelho do nosso tempo e questiona o que as atribuições artísticas dizem sobre memória e identidade.






















