Por Chiara Lombardi — Em tempos em que a retórica pública frequentemente reduz a mobilidade humana a números e medos, o livro Controvento. Dall’Albania a Bruxelles: diario di un’Europa possibile, de Eriseld “Seldi” Zeneli (edizioni Joker), surge como um espelho sensível do nosso tempo. Não é apenas uma biografia: é um ensaio íntimo que transforma uma trajetória pessoal em reflexão coletiva sobre migração, identidade e esperança europeia.
Nascido na Albânia e chegado à Itália aos três anos, Zeneli constrói uma narrativa que atravessa países — Itália, Luxemburgo e, finalmente, Bruxelas — e institui o relato como mapa de mobilidade social. Como profissional nas instituições europeias, ele escreve observando por dentro uma União muitas vezes descrita como distante ou excessivamente burocrática. Mas o que emerge do livro é outra imagem: a da Europa como espaço concreto de oportunidades, direitos e circulações que moldam vidas reais.
Apresentado em Bruxelas, num encontro com uma comunidade italiana vibrante, Controvento organiza sua mensagem em três nós centrais. Primeiro, a migração. Contra a narrativa dominante que pinta o deslocamento humano como uma ameaça, Zeneli propõe a migração como recurso — uma força que gera integração, crescimento econômico e enriquecimento cultural, comprovada por milhões de histórias europeias bem-sucedidas. Esta é uma inversão de enquadre: o fenômeno passa de problema para potencial transformador.
O segundo fio é dirigido às novas gerações. Em um momento em que muitos jovens se sentem desiludidos com a política e sem perspectivas profissionais, a trajetória de Zeneli funciona como testemunho prático de que objetivos concretos são alcançáveis mesmo sem privilégios hereditários. Chegar da Albânia e construir uma carreira na União Europeia — sem ser “filho de” — é, para ele, prova de que a Europa, embora imperfeita, ainda oferece espaços de crescimento.
Terceiro, o autor se coloca em defesa do projeto europeu. Reconhecendo suas falhas e a necessidade de reformas, Zeneli reafirma o valor histórico da União Europeia como garante de estabilidade, liberdade e cooperação entre estados. Sua defesa não é acrítica: é um apelo por aprimoramento, para que o projeto continue sendo uma bússola civilizacional.
Na apresentação, não faltou reflexão sobre a ampliação da UE aos países dos Balcãs Ocidentais. Para Zeneli, a integração de Estados como Albânia e Montenegro seria um passo natural — a continuação de um processo histórico já em curso, uma legitimação de laços culturais e geográficos que existem de fato.
Como analista cultural, vejo em Controvento algo além de um depoimento pessoal: um reframe do que entendemos por pertencimento. O livro funciona como roteiro oculto da sociedade contemporânea, onde memórias individuais se entrelaçam com decisões políticas e com a semiótica do espaço público europeu. Ler Zeneli é ser convidado a repensar a narrativa dominante, a recolocar a migração no centro das possibilidades e a olhar para o projeto europeu não como uma máquina ineficiente, mas como um cenário em transformação — sujeito a erros, mas imprescindível.
Em suma, Seldi Zeneli nos oferece uma história que é, ao mesmo tempo, pessoal e coletiva: um diário que traduz mudanças biográficas em lições cívicas. É leitura recomendada para quem quer entender o presente europeu através das vidas que o atravessam, e para quem procura esperanças concretas num debate muitas vezes polarizado.
















