Como uma cena cuidadosamente iluminada de um filme de autor, a nova obra de Gabriella Greison chega às prateleiras para nos convidar a olhar o cotidiano sob outra lente. Física e escritora, Greison apresenta La lunghezza d’onda della felicità, publicado pela Mondadori, livro que também ganha adaptação teatral com estreia marcada para hoje no Teatro Manzoni, em Roma.
Para a autora, a felicidade não é a quietude de um quadro congelado; é movimento, salto, e sobretudo uma emissão de luz. “A felicidade não chega quando tudo para, mas quando deixamos de nos opor ao nosso movimento natural. Nós somos elétrons, não enfeites. E o elétron nunca fica imóvel num ponto preciso: ele salta, troca de nível energético, e quando o faz — acontece algo extraordinário: ele emite luz.” A imagem é direta e cinematográfica: o salto como um plano-sequência que revela algo até então invisível.
No cerne do livro está uma tese provocadora e elegante: a felicidade é um estado físico, não apenas um estado de espírito. A autora utiliza a física quântica para dizer ao leitor que o século XX nos deixou uma lição desconcertante e libertadora — nada é imóvel, nada é definitivo; tudo oscila. Se a matéria vive de variações de frequência, por que nossas vidas seriam diferentes?
Greison toma como ponto de partida a intuição de Louis de Broglie, prêmio Nobel de 1929, que propôs que cada partícula carrega consigo uma onda associada. Essa descoberta derrubou a ideia de um mundo rígido e previsível: a matéria é ritmo, é frequência. No livro, a autora transporta essa intuição do laboratório para o palco da existência humana: emoções, desejos e até crises são, no fundo, variações de frequência — deslocamentos necessários para que a luz, em algum momento, seja emitida.
“A felicidade é ter a coragem de saltar, aceitar a oscilação e permitir que a luz saia quando for o momento certo”, diz Greison. Para ela, o que parece indefinição ou retrocesso — aquela suspensão em que tudo parece desacelerar — não é fracasso, mas um salto energético em curso. E mesmo que a luz não seja imediata, mesmo que outros não a vejam, ela é produzida no processo.
Essa leitura conecta ciência e experiência humana com a sutileza de quem entende que narrativas públicas e íntimas se atravessam: parar de imitar frequências alheias e começar a vibrar na própria ressonância é um gesto de autenticidade e resistência cultural. A metáfora não é só poética; é uma reconfiguração do roteiro que contamos sobre sucesso, perda e reinvenção.
Transformar o livro em espetáculo é um movimento coerente: o teatro — esse palco da comunidade e do espelho social — permite que a ideia da oscilação se manifeste corporalmente, com luzes, silêncios e saltos que reverberam no público. A peça promete ser, também, um exercício coletivo de reconhecimento: ver no outro o próprio pulso oscilante.
Leitura e cena convergem assim para um diagnóstico cultural: vivemos tempos que exigem regravações de sentido, reframes de nós mesmos. Greison nos oferece um mapa elegante para entender por que crises não anulam trajetórias, mas podem ser a trama oculta que, quando ativada, produz energia visível. É, em suma, um convite a aceitar que a vida é mais um filme em movimento do que uma foto perfeitamente composta.
Enquanto o livro circula nas livrarias e a anteprima no Teatro Manzoni acende as luzes da estreia, a proposta de Greison ressoa como uma pergunta-síntese: se tudo que existe tem uma frequência, qual é a nossa? E, sobretudo, teremos coragem de saltar para ouvir o som que produz luz?


















