Por Chiara Lombardi — Em uma conversa que reflete o olhar de quem enxerga a cidade como um roteiro vivo, a professora Claudia Conforti, titular de História da Arquitetura na Faculdade de Engenharia da Universidade Roma Tor Vergata, traça a cartografia íntima entre saber histórico e decisões técnicas contemporâneas. Para Conforti, ensinar a história da construção aos futuros engenheiros não é um luxo acadêmico: é um antídoto contra intervenções que tratam o patrimônio apenas como problema estrutural.
Ela lembra que, há cerca de trinta anos, foi o professor Vittorio De Feo um dos proponentes de inserir pelo menos um exame de história da arquitetura nos currículos de engenharia civil. A razão, explica Conforti, é prática e ética: muitos restauros de edifícios monumentais exigem a presença de um engenheiro porque o risco envolve componentes estruturais decisivos. Mas quando o profissional conhece as vicissitudes que moldaram aquele edifício — técnicas construtivas, escolhas estéticas e adaptações históricas — as opções de intervenção tendem a ser coerentes com a natureza do monumento.
Usando a metáfora do tabuleiro de xadrez, ela descreve o que acontece diante de um edifício histórico: “há muitas jogadas possíveis, mas uma pode levar à vitória e outra pode fazer saltar o banco”. A escolha entre consolidação, ripristino (restaurar ao estado conhecido) ou procurar a imagem que se acreditava ser a originária (como fizeram muitos restauradores do século XIX) não é meramente técnica — é também uma decisão historiográfica e estética.
Conforti lembra episódios paradigmáticos. Quando parte da cobertura e do salão com afrescos da Basílica de São Francisco em Assis desabou num terremoto, as técnicas tradicionais (estruturas leves em madeira que servem para amarrar as paredes) foram compreendidas em seu contexto histórico. O erro posterior, segundo a professora, foi a adoção de um cordolo de cimento que alterou o comportamento da estrutura — uma lição sobre como soluções modernas, sem a compreensão do histórico construtivo, podem agravar danos.
Outro caso citado é o do Torre dei Conti, cuja queda — recente e dramática — reabre o debate sobre escolhas de restauro e manutenção urbana. Para Conforti, sem essa base de conhecimento histórico, corre-se o risco de optar pelo reparo que resolve o sintoma mas não respeita a memória material do edifício.
E o Ponte Morandi? A professora é categórica: o colapso de Gênova não foi apenas uma falha técnica; foi também um caso de incúria — técnica e estética. A negligência na manutenção, a perda da leitura estética do objeto arquitetônico enquanto sinal urbano e a erosão de uma cultura de preservação contribuíram para uma tragédia que tem dimensões estruturais, sociais e simbólicas. O ponte deixou de ser apenas infraestrutura para se tornar espelho do nosso tempo: o roteiro oculto de uma cidade que esqueceu de cuidar de seu próprio corpo.
Do ponto de vista pedagógico, Conforti defende uma formação híbrida: engenheiros que leem tradição, arquitetos que entendem cálculo, restauradores que dialogam com a memória material. É nesse encontro que nascem intervenções capazes de respeitar tanto a segurança quanto a identidade do patrimônio.
A professora conclui com uma reflexão que soa como um chamado: conservar é, antes de tudo, uma narrativa pública. Manter um edifício não é apenas evitar o colapso estrutural; é preservar um elo entre gerações. Em termos cinematográficos, é cuidar do quadro que nos ajuda a reconhecer quem fomos e imaginar quem queremos ser. A história da arquitetura oferece as lentes para ler esse quadro e orientar decisões que, se bem feitas, restituem ao espaço urbano sua coerência estética e funcional.
Em resumo: investir em ensino, manutenção e em uma cultura de restauro informada é transformar o patrimônio num intérprete vivo do passado — e numa promessa segura para o futuro.






















