Apresentada em estreia nacional no MAO de Turim, a exposição “The Soul Trembles” reúne mais de vinte anos de investigação artística de Chiharu Shiota, numa composição sensorial que mescla desenho, fotografia, escultura e instalações ambientais monumentais. Curada por Mami Kataoka, diretora do Mori Art Museum de Tóquio, e por Davide Quadrio, diretor do MAO, a rassegna já passou por instituições de prestígio como o Grand Palais de Paris e o Busan Museum of Art.
O fio — literal e simbólico — é o eixo condutor do percurso: intricados emaranhados de fios vermelhos e negros preenchem as salas, transformando o espaço expositivo numa paisagem tátil que convida à contemplação e à imersão. Esses labirintos de linha falam de identidade, memória, encontros e perdas — temas universais que a artista costura como quem borda a pele do tempo.
Entre as lembranças que atravessam a mostra, ressoa a antiga lenda oriental do fio vermelho do destino, segundo a qual nascemos ligados a outra alma por um fio invisível atado ao dedo mínimo. Não é possível afirmar que essa narrativa tenha sido a origem direta da obra de Shiota, mas suas raízes japonesas certamente alimentam a presença simbólica do fio em suas instalações.
Uma sala chama o visitante com uma pilha de malas amarradas umas às outras na obra Where to Go, What to Exist, dedicada a quem atravessou fronteiras e lares, sentindo-se ao mesmo tempo cidadão do mundo e eternamente em trânsito. Há, nessa composição, a sensação de pertencer e de partida — como uma colheita de hábitos que nunca repousa.
Não se esquece facilmente do grande entrelaçado que se estendia por um pavilhão inteiro: dois barcos de madeira, moldados como mãos que formam uma taça, acolhiam mais de 50 mil chaves doadas por pessoas do mundo inteiro. As chaves, suspensas no abraço dos fios vermelhos, tornavam visíveis histórias anônimas — pequenas geografias de lembrança e desejo.
A própria trajetória de Chiharu Shiota é parte da narrativa: nativa do Japão, a artista mudou-se várias vezes e acabou por estabelecer-se em Berlim, onde aprofunda técnicas contemporâneas e expande sua poesia material. Essa migração de raízes e rotas ecoa nas peças que tratam da passagem, do deslocamento e do lar enquanto invenção e memória.
Uma das salas mais intensas reproduz um sonho — ou um trauma — infantil: o espectador encontra um piano solitário, lembrança de um incêndio que marcou a artista. O instrumento, agora vazio e queimado, aparece entrelaçado por fios negros, evocando a solidão, o silêncio e, ainda assim, uma estranha beleza poética. É um inverno da memória onde a devastação convive com a reverência.
Ao percorrer a exposição, o visitante é convidado a reconhecer as próprias linhas invisíveis: laços quebrados ou preservados, caminhos escolhidos e vias de fuga. Em cada nó, em cada suspensão, Shiota nos lembra que a memória e a relação com o outro são tecidos que definem o contorno do nosso ser.
Mais do que olhar obras, saímos com a sensação de que fomos atravessados por algo palpável — como se a cidade respirasse junto com os fios, e como se Turim, por algumas salas, tivesse oferecido ao corpo um tempo de pausa para sentir as raízes do bem-estar emocional.
Informações práticas: a exposição foi curada por Mami Kataoka e Davide Quadrio e apresenta desenhos, fotografias, esculturas e imponentes instalações em fios que dialogam com temas universais de vida e morte, identidade e relação com o outro.






















