Por Chiara Lombardi — Em Con parole precise. Manuale di autodifesa civile, publicado pela Feltrinelli, Gianrico Carofiglio retoma uma provocação essencial: a escuridão da linguagem é, em sua raiz, um fenômeno profundamente antidemocrático. Para quem trabalha numa agência de notícias, sabe-se que a concisão do flash traduz importância; Carofiglio transforma essa regra prática numa lição cívica e analítica ao longo de cerca de 170 páginas.
O autor disseca, com finesse jurídico-literária, as armadilhas do discurso público — desde parlamentos e tribunais até burocracias privadas e redações — mostrando como frases vazias corroem a confiança nas instituições. Segundo ele, a proliferação de enunciados sem sentido realiza um duplo dano: empobrece o debate e mina a legitimidade das estruturas democráticas. Tratar a qualidade da linguagem pública não é um capricho intelectual: é um imperativo da ética cívica.
Ao traçar uma genealogia dessas formas de opacificação, Carofiglio revisita reflexões que remontam a pensadores do século XX. Evoca o alerta de Hannah Arendt sobre como a aceleração das transformações sociais e a perda de pontos de referência podem tornar as massas suscetíveis a narrativas contraditórias e à propaganda. Em linguagem contemporânea, o ponto central é este: quando a verdade e a mentira se tornam igualmente suspeitas, instala-se um terreno fértil para manipulações retóricas e para a aceitação passiva do absurdo.
Se Arendt ofereceu o diagnóstico, Carofiglio aponta exemplos recentes da cena política global: Donald Trump é citado como um mestre em transformar o ato de comunicar em um rito de manipulação coletiva. Seus comícios funcionam como dispositivos de indução emocional onde contradições são silenciadas, e slogans simplificadores — pense em “drain the swamp” ou “build the wall” — moldam inimigos e identidades.
O ensaio não se limita a apontar culpados externos: observa também como mecanismos retóricos similares reaparecem em fórmulas políticas nacionais, incluindo propostas e linguagens que prometem soluções fáceis à custa da complexidade democrática. Carofiglio defende que recuperar a clareza do discurso público é um ato de resistência civil. Não se trata apenas de bom estilo: é proteger a polis contra a erosão da veracidade e do debate informado.
Como analista cultural, enxergo o livro como um espelho do nosso tempo: uma chamada a redescobrir a responsabilidade de falar com precisão, sobretudo num cenário saturado por viralidade e espetáculo. A obra funciona como um manual — tanto técnico quanto moral — para quem acredita que a palavra tem poder de formar memórias coletivas e de reescrever, em silêncio ou em voz alta, o roteiro oculto da sociedade.
Em termos práticos, Carofiglio nos convida a cultivar hábitos simples: preferir clareza à obstrução, exigir fontes e argumentos, resistir a metáforas que cancelam complexidade e olhar com ceticismo saudável para promessas que soam fáceis demais. É um gesto cívico que reverbera além das redações: é também uma proposta de reframe cultural. Afinal, quando a linguagem se torna mais transparente, o espaço público retorna a ser um cenário possível de deliberação e responsabilidade.
Para leitores que gostam de dissecar forma e sentido como quem analisa uma cena cinematográfica, Con parole precise é um convite a desmontar o dispositivo retórico e a reaprender a escutar. Em tempos de ruído, a clareza é um ato de coragem — e, sobretudo, de cidadania.






















