Por Chiara Lombardi — Emaranhado entre laços de sangue e enredos geopolíticos, a história de Carlo Edoardo é um daqueles roteiros que parecem saídos de um drama histórico: neto de Vittoria, batizado pela própria imperatriz e agraciado com títulos britânicos, ele se tornou símbolo do rompimento entre família, identidade e poder.
Nascido em Esher a 19 de julho de 1884, Carlo Edoardo recebeu desde cedo o brilho e a formalidade da corte britânica: foi nomeado príncipe do Reino Unido e duque de Albany, além de manter por nascimento o ducado de Sassonia-Coburgo-Gotha. Aos olhos do Império, era um pedaço vivo da continuidade dinástica — até que o roteiro tomou um outro rumo.
As monarquias europeias eram parentes próximas: o kaiser Guglielmo II, o rei da Inglaterra Giorgio V e a czarina Aleksandra (nascida Alice Vittoria) eram laços de uma tapeçaria familiar que, ironicamente, não impediu o choque mortal das trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Quando o conflito explodiu, Carlo Edoardo optou por servir ao Império alemão: havia passado a maior parte da juventude na Grã-Bretanha, mas retornou à Alemanha para assumir seu trono ducal — e, mais tarde, vestiu o uniforme do lado germânico.
O contraste com sua origem britânica era impossível de ignorar. O rei Giorgio V reagiu com severidade: em 1917, no contexto da mudança de nome da família real para Windsor, todos os títulos e honrarias britânicas vinculados a Carlo Edoardo foram retirados — ele foi excluído da lista da Order of the Garter e despojado de prerrogativas. A sensação de traição atravessou palácios e parlamentos como uma cena truncada de um velho filme de família.
O fim da guerra lhe trouxe a derrocada: a queda do Império Alemão e a instauração da República de Weimar culminaram na destituição do duque, na nacionalização de bens e numa humilhação pública que atingiu até mesmo os trabalhadores de suas propriedades — um eco da convulsão social que sacudia a Europa pós-Versailles.
É aí que entra o capítulo mais sombrio da sua biografia. Em meio ao vácuo político, Carlo Edoardo buscou refúgio nas milícias e movimentos paramilitares que prometiam restaurar ordem e glória. Foi nesse cenário que, em 1922, cruzou caminhos com um agitador de rua que viria a transformar a Alemanha: Adolf Hitler. A convergência entre velhos privilégios aristocráticos e as promessas radicais do nacionalismo extremo produziu uma aliança que chocou a consciência europeia.
Quando Hitler alcançou o poder em 1933, o duque não apenas celebrou a novidade — hasteando a bandeira com a svastika em seu castelo de Coburgo — como formalizou sua adesão ao Partido Nazista no mesmo ano, consolidando sua transformação de príncipe britânico em notório aliado do Terceiro Reich. A linguagem do poder havia mudado: do verniz monárquico ao iconográfico totalitário.
O caso de Carlo Edoardo funciona, para nós, como um espelho do nosso tempo: uma narrativa que revela como identidades nobres podem ser reescritas por crises econômicas, ressentimentos e narrativas autoritárias. Não é apenas a história de um homem envergonhando dinastias; é o roteiro oculto de como legados simbólicos podem ser apropriados por forças que prometem ordem e entregam violência.
Fica a lição — e o desconforto estético de ver o passado real transformado em prelúdio de um futuro sombrio. A biografia de Carlo Edoardo permanece, assim, um estudo sobre memória, pertença e a facilidade com que o poder hereditário se dissolve diante das urgências ideológicas de cada época.






















