Romanos, ensaios, reportagens e livros de investigação: a seleção desta semana traz novidades que mexem com memória, identidade e o espírito do tempo. Entre as obras destacadas, sobressai Cara Istanbul, da atriz Serra Yilmaz, publicado pela Rizzoli, um livro que é ao mesmo tempo lembrança íntima e panorama cultural de uma cidade em transformação.
Como se folheássemos um álbum de família projetado num cinema ao ar livre, Cara Istanbul reconstrói bairros, ruas e casas onde Serra cresceu — quando a metrópole tinha cerca de um milhão de habitantes, não os vinte milhões de hoje. A escrita funciona como um espelho do nosso tempo: ao redor da estufa de faiança em invernos rigorosos ou na varanda voltada para o Bósforo em noites quentes, vem à tona um mosaico de vozes, cheiros e rituais que narram as mutações urbanas, sociais e afetivas.
A atriz turca, tão amada pelo público italiano graças aos filmes de Ferzan Özpetek, opta por uma espécie de autobiografia em episódios — pessoas, casas e detalhes que formam um roteiro fragmentado e profundamente humano. Há as longas férias com a avó na margem asiática, entre praias e jardins; o entrelaçar de laços familiares; as primeiras paixões e as experiências iniciais no trabalho; e o despertar de uma atração cultural por França e Itália, além do teatro. Tudo isso é narrado com uma ironia cortante, anedotas picarescas, receitas típicas (a gastronomia é paixão antiga da autora) e uma superstição levantina que ainda protege do mau-olhado.
O tom do livro é magmático e urgente, como uma montagem cinematográfica que alterna close-ups de memórias íntimas e planos gerais sobre a cidade em mutação. Essa escolha narrativa transforma Cara Istanbul não apenas num testemunho pessoal, mas num documento cultural sobre a relação entre lugar e identidade — o roteiro oculto que define como nos lembramos e como contamos nossas vidas.
Além de Serra Yilmaz, a seleção editorial inclui títulos que vão da biografia (há livros recentes sobre figuras históricas como Papa Leão) a obras de investigação jornalística que reabrem debates — por exemplo, leituras que revisitariam casos midiáticos como o de Tortora. A pluralidade de vozes e formatos — do relato íntimo ao ensaio histórico — confirma que as prateleiras contemporâneas são um campo onde memória, justiça e estética se encontram.
Como observadora cultural, vejo essas novidades como sintomas e mapas: cada livro é um espelho que, ao refletir uma vida ou um episódio, nos convida a reinterpretar um tempo mais amplo. Ler hoje é um ato de arqueologia afetiva — e Cara Istanbul é uma escavação que nos dá, de presente, aromas, sabores e diálogos de uma cidade que é cenário e personagem.
Seja em busca de narrativas que explicam o presente, seja para se perder nas ruínas afetivas de um passado que persiste, a nova safra de lançamentos promete leituras que reverberam além da página. E, claro, trazem à tona o porquê de continuarmos a buscar nos livros um reframe da realidade.






















