Por Chiara Lombardi — Em um gesto que mistura comédia popular e espelho do nosso tempo, Buen Camino, a nova comédia de Checco Zalone, acaba de se consagrar como a maior bilheteria da história da Itália. Em apenas 24 dias de exibição, o filme já arrecadou €68.823.000 e registrou cerca de 8.562.000 presenças em sala, superando o recorde anterior de Avatar (2010), que era de €68.600.000.
Dirigido por Gennaro Nunziante e distribuído pela Medusa Film em coprodução com Indiana Production e Mzl, Buen Camino foi lançado no dia de Natal e rapidamente deixou de ser apenas um produto de entretenimento para se tornar um fenômeno social. O filme tratou, com ironia e leveza, temas que vão da adolescência à saúde pública, compondo um roteiro oculto que reflete ansiedades e memórias coletivas contemporâneas.
Os números de estreia já apontavam para algo maior: na véspera de Natal o filme faturou €5.671.922, estabelecendo o novo recorde para um filme no dia de Natal, superando o antigo marco de “Natale a New York” (2006). No dia de Santo Stefano, a bilheteria aproximou-se dos €8 milhões, levando o total dos dois primeiros dias para quase €14 milhões — uma arrancada que eclipsou a estreia de outros blockbusters.
Na segunda semana de exibição, Buen Camino já havia ultrapassado os €53 milhões, e, após 20 dias, consolidou-se como o filme italiano de maior arrecadação, desbancando outro título de sucesso de Zalone, “Quo Vado?”. Para efeito de comparação histórica: em 2016, “Quo Vado?” faturou €65.365.736 e por muito pouco não superou Avatar. Em 2022, o relançamento de Avatar adicionou cerca de €3 milhões ao seu total, formando o já mencionado recorde de €68,6 milhões — até hoje ultrapassado por este novo êxito.
Mas por que uma comédia conquistar tantos corações e ingressos? A resposta passa pelo timing cultural. Buen Camino fala de temas universais com uma gramática popular que não menospreza a inteligência do público — é um reframe da realidade que transforma tabus em discussão coletiva. É cinema que opera como um reflexo: divertido, mas também um dispositivo de memorização social, onde gargalhadas e identificação caminham juntas.
Do ponto de vista industrial, o fenômeno confirma que o roteiro do mercado cinematográfico italiano ainda reserva surpresas. A persistência do filme nas salas por todo o país indica que seu recorde tende a crescer. Enquanto as luzes do multiplex continuam acesas, Buen Camino não é apenas um sucesso de bilheteria: é um sinal sobre o papel do cinema como narrador da contemporaneidade e como laboratório em que questões sociais são dramatizadas e, por vezes, metabolizadas pelo público.
Em suma, o feito de Checco Zalone e Gennaro Nunziante nos convida a olhar além dos números: há um roteiro oculto do zeitgeist italiano sendo composto diante da tela. E enquanto esse eco cultural reverbera, as salas seguem cheias — porque, às vezes, rir é também um modo de reconhecer quem somos.






















