Por Chiara Lombardi — Em Veneza, a grande cena cultural volta seu ouvido para o sutil. A Biennale Arte 2026, intitulada In Minor Keys, reafirma uma postura que rejeita o estrondo em favor da ressonância: é uma exposição pensada como um exercício coletivo de escuta, onde a escuta torna-se política e estética.
Com abertura marcada para 9 de maio e duração até 22 de novembro de 2026, a 61ª Esposizione Internazionale d’Arte aposta na tonalidade menor — não como melancolia, mas como estratégia. Nada de fanfarras ou retórica musculada: prevalecem frequências baixas, vibrações delicadas, improvisação e poesia como vias para imaginar o “outro” e o “de outro modo”. A mostra privilegia a intensidade à espetacularidade, a relação ao objeto isolado e a coralidade acima da assinatura individual.
Ao centro do projeto estão 111 nomes — artistas e coletivos — selecionados por afinâncias, convergências e ressonâncias subterrâneas, mais do que por fronteiras geográficas ou gerações. O mapa que emerge é uma teia de práticas carecidas de ativação comunitária: processos que convoquem memória, imaginação política e cuidado num mundo atravessado por tensões e violência. Em termos curatoriais, a Biennale se propõe como uma constelação de pontos sonoros, cada qual contribuindo para um registro baixo porém potente — uma partitura onde o silêncio e os interstícios contam tanto quanto o gesto manifesto.
A mostra também carrega um traço histórico e comovente: a morte súbita de sua curadora, Koyo Kouoh, em maio de 2025, durante os preparativos. É a primeira vez, nos 131 anos da Biennale fundada em 1895, que uma edição é concluída segundo a visão de uma curadora já falecida. Para garantir a fidelidade do projeto, Kouoh havia indicado uma equipe de confiança — os curadores Gabe Beckhurst Feijoo, Marie Helene Pereira e Rasha Salti; o crítico Siddhartha Mitter, responsável pelos materiais editoriais; e Rory Tsapayi como assistente — que traduziu notas, conversas e fragmentos em uma partitura expositiva coesa.
O time curatoral, apresentado em Ca’ Giustinian por Maria Cristiana Costanzo e pelo presidente da Biennale, Pietrangelo Buttafuoco, trabalhou internacionalmente entre Europa, África e Estados Unidos, alternando encontros presenciais a coordenações remotas. O método de seleção reafirma a escolha conceitual de Kouoh: privilegiar práticas cujo diálogo se constrói por afinidades ocultas, tensões partilhadas e convergências inesperadas — um reframe da realidade que se distancia da lógica do evento-grandioso para apostar na densidade do processo.
No ensaio que acompanha a mostra, as “minor keys” são descritas como um gesto crítico frente ao “clamor orquestral” e às “marchas militares”: uma estética do baixo e do íntimo. Entre as referências teóricas apontadas por Kouoh estão Édouard Glissant, Toni Morrison e Patrick Chamoiseau — pensadores cuja obra trabalha conceitos de memória, diáspora e creolidade, oferecendo lentes valiosas para ler as obras como modos de escuta e de resistência.
Como observadora do zeitgeist, percebo nesta edição uma vocação a transformar os visitantes em ouvintes atentos, a exibir menos e a provocar mais: a Biennale, aqui, torna-se um espelho do nosso tempo, um cenário de transformação onde a arte reencena a importância das relações humanas e da imaginação coletiva. Em vez de aplausos, pede-se atenção; em vez de microfones, propõe-se o silêncio fértil do encontro.






















