Chiara Lombardi — A partir de 9 de janeiro, Catanzaro reabre um diálogo íntimo e provocador com a obra de Mimmo Rotella. A Fundação Mimmo Rotella apresenta a exposição Autorotella, uma mostra-curadoria de Alberto Fiz que reúne autorretratos do artista inventor do décollage, em comemoração aos 20 anos de sua partida. A exposição fica em cartaz até 29 de março de 2026, na Casa della Memoria, residência que testemunhou a formação humana e estética do artista.
A mostra parte do título autobiográfico de Rotella — um diário visual que documenta os anos entre 1966 e 1970 — e expõe obras que atravessam três décadas (1969–1999). São autorretratos em diferentes suportes: da tela emulsionada do Autoportrait ao Autoritratto Napoleonico sobre lamiera, onde o décollage e a pintura convertem o rosto em máscara; chegam ainda os retratos com a filha Asya, esculturas em bronze e desenhos de caráter caricatural.
O trabalho de Rotella com o próprio rosto constitui um sistema simbólico denso: a sua imagem pode ser rasgada, remendada, pintada novamente ou transformada em ícone pela máscara — uma prática que reescreve a biografia visual do autor e questiona o estatuto da imagem num mundo cada vez mais mediado. É como se o artista criasse, quadro a quadro, um espelho do nosso tempo, onde o autorretrato funciona tanto como confissão quanto como cena encenada.
No prefácio curatoral, Alberto Fiz observa: “Mimmo Rotella antecipou o universo dos media e das redes sociais com um olhar provocador e jamais complacente; sua linha é europeia, crítico-reativa e recusa a celebração fácil“. A Casa della Memoria, lugar intimamente ligado à sua história pessoal, torna-se por isso palco ideal para uma releitura que privilegia a presença do artista mais do que a sua mitificação.
Como analista cultural, vejo em Autorotella um convite a ler o décollage como um roteiro oculto da sociedade: rasgar e sobrepor publicidade, rosto e objeto é, em certa medida, reescrever o imaginário coletivo. A exposição imprime uma continuidade entre a memória local — Catanzaro, a casa-museu onde Rotella cresceu ao lado da mãe modista — e o pulso europeu de uma pesquisa que transformou cartazes e resíduos urbanos em gesto poético e crítico.
Organizada pela Fondazione Mimmo Rotella, a mostra reúne também testemunhos e materiais de arquivo que contextualizam a prática autorreferencial do artista. Para quem visita, a experiência propõe uma leitura que vai além do visível: é um reframe da realidade, um convite a perceber como as imagens se reinventa, fragmentam e se reagrupam em significados novos.
Exposição: Autorotella — Omaggio a Mimmo Rotella
Período: 9 de janeiro a 29 de março de 2026
Local: Casa della Memoria, Catanzaro
Curadoria: Alberto Fiz
Organização: Fondazione Mimmo Rotella






















