Por Chiara Lombardi — Um pequeno grande evento para o colecionismo e para quem vê na arte um espelho do nosso tempo: um raro painel duplo de Antonello da Messina (c. 1430–1479) será oferecido na venda Master Paintings da Sotheby’s em Nova York, na quarta-feira, 4 de fevereiro. A estimativa pública gira entre 10 e 15 milhões de dólares, valor condizente com a escassez absoluta de obras sobreviventes do mestre — são pouco mais de quarenta obras conhecidas, em sua maioria em museus.
Datado por volta de 1460–1465, o painel reúne, na sua face principal, um intenso Ecce Homo e, no verso, uma delicada representação de São Jerônimo contemplando um livro aberto, junto a um hábito de eremita. É uma peça que funciona como um pequeno roteiro visual: pela frente, a presença humana do Cristo exibido por Pôncio Pilatos, segundo o Evangelho de João; atrás, o retiro intelectual e ascético do tradutor da Bíblia para o latim.
No Ecce Homo, Antonello evita a idealização convencional: o rosto de Cristo, marcado pela dor e coroado de espinhos, revela juventude, vulnerabilidade e uma fisicalidade crua — o torso nu se contrai, a pele responde à luz com sutilezas que remetem à pintura flamenga, mas com uma intensidade expressiva singular. O olhar direto do condenado envolve o observador, como se o quadro esfregasse na nossa consciência o “roteiro oculto da sociedade” sobre culpa, espetáculo e compaixão.
No verso, São Jerônimo ajoelhado diante de um livro e de um tinteiro encarna a prática devocional e erudita do homem de fé. O paisagismo que o envolve — rochas, poças de água, claros e sombras — evidencia uma habilidade quase cinematográfica de miniaturização e realismo. Pequenas áreas de abrasão no painel indicam que ele foi objeto de devoção ativa, possivelmente aproximado do corpo pelo seu antigo possuidor, gesto que transforma o quadro em relicário íntimo.
Peças como esta aparecem no mercado com uma periodicidade rara — trata-se, segundo especialistas, da segunda obra dessa envergadura a chegar a leilão em uma geração; a outra hoje integra o acervo do Louvre. Christopher Apostle, chefe internacional da divisão Old Masters da Sotheby’s, resume o impacto: Antonello é “um artista quase lendário, e seus quadros são excepcionalmente raros”, e este painel revela uma “subtileza maravilhosa: não um ideal, mas uma pessoa real, jovem, vulnerável e profundamente humana.”
O significado histórico é claro: Antonello, nascido na Sicília, formado em Nápoles e ativo em Veneza, foi um vetor decisivo na circulação das inovações flamengas para o Sul da Itália, em especial o uso pioneiro da técnica a óleo, que permitiu gradações tonais e cromáticas inéditas. Seu legado reverbera em nomes como Giovanni Bellini — cuja obra posterior aprofunda composições e atmosferas que se anunciam aqui.
Para além do valor de mercado, a aparição deste painel em Nova York funciona como um pequeno espelho do mercado cultural global: revela valores, obsessões e memórias que ainda negociamos coletivamente. Como em um filme que revive cenas do passado para nos fazer pensar o presente, o leilão transforma a obra em um ponto de encontro entre tradição, devoção e circulação internacional.
Em termos práticos, a obra será um dos destaques da sessão Master Paintings, e sua saída a leilão deve atrair tanto instituições quanto colecionadores privados ansiosos por um raro laço direto com o Renascimento italiano.






















