Chiara Lombardi — Em um gesto que mistura rito, memória e grande escala pictórica, Anselm Kiefer retorna à Itália com uma obra que se lê como um roteiro oculto sobre poder, saber e esquecimento. A partir de 7 de fevereiro de 2026, a Sala das Cariátides do Palazzo Reale, em Milão, acolherá a exposição Le Alchimiste, um projeto composto por trinta e oito imponentes telas concebidas para dialogar com a arquitetura e a história do lugar.
Depois de trabalhos realizados em espaços internacionais como o Grand Palais, em Paris, e a Bienal de Veneza, Kiefer volta ao cenário italiano com um corpus que entrelaça mito e documento, num movimento que questiona o papel das mulheres na gênese do pensamento científico e na memória ocidental. As superfícies pictóricas de Kiefer agem como cenários de transformação — o mesmo princípio que, historicamente, animava os ateliers alquímicos: destruição e recomposição, carvão e ouro simbólico, cicatrizes que viram epifania.
O título Le Alchimiste remete às figuras femininas — entre Idade Média e Renascimento — que se dedicaram à experimentação alquímica e médica: pesquisas muitas vezes ocultadas pelo cânone oficial. Kiefer constrói aqui um pantheon alternativo: nomes esquecidos ou marginalizados recuperam matéria e visibilidade. Entre elas, destaca-se Caterina Sforza, filha de Galeazzo Maria Sforza, mulher do fim do XV e começo do XVI século, conhecida tanto por sua presença política quanto por um manuscrito com mais de quatrocentas fórmulas e receitas alquímicas, cosméticas e terapêuticas. Ao lado de Caterina surgem figuras como Isabella Cortese, Maria la Giudea, Marie Meudrac, Rebecca Vaughan, Mary Anne Atwood e Anne Marie Ziegler, que compõem um catálogo de saberes domésticos e experimentais que precederam e influenciaram a ciência moderna.
Nas telas de Kiefer, o traço e a matéria funcionam como camadas de memória: pigmentos que se aproximam de paisagens arqueológicas, objetos incorporados que chegam à pintura como relíquias, e gestos que parecem registrar o atrito entre tradição e ruptura. É como se o artista pedisse ao espectador que leia a exposição tanto como uma galeria quanto como uma crônica de ruínas — um espelho do nosso tempo que revela o roteiro oculto da sociedade ao recuperar vozes silenciadas.
O diálogo com a Sala das Cariátides é, portanto, central. As telas foram pensadas para responder às proporções e à memória do espaço, produzindo uma experiência onde esplendor e ruína se atravessam. Em vez de um museu apenas celebratório, Kiefer propõe um lugar de interrogantes: como as formas do saber feminino foram apropriadas, invisibilizadas ou transformadas pelo cânone? E que ecos dessas práticas antigas ecoam no presente?
Mais do que uma retrospectiva, Le Alchimiste é um ensaio em pigmento e matéria sobre a permanência do esquecimento e sobre as possibilidades de ressurreição simbólica. Em seu gesto, Kiefer não só homenageia mulheres que a história relegou ao limiar; ele nos convida a reconsiderar como contamos as genealogias do conhecimento.






















