Por trás de cada objeto porcelânico há um roteiro oculto que combina experimento, estética e história. A partir de 31 de janeiro, o MIC Faenza inaugura Alchimia Ginori 1737-1896, uma mostra que reconstrói dois séculos da produção da célebre manufatura de Doccia, fundada em 1737 por Carlo Ginori, e explora o entrelaçamento entre química, técnica e imaginação criativa.
Organizada pela própria Fundação MIC em parceria com a Fondazione Museo Ginori — instituída em 2021 pelo Ministério da Cultura, a Região Toscana e o Município de Sesto Fiorentino — a exposição surge como resposta à necessidade de levar ao público um acervo que, desde junho de 2014, está conservado em depósito devido ao longo restauro do edifício-museu em Doccia. Assim, o patrimônio da manufatura encontra em Faenza um novo palcoscenico para ser visto, estudado e ressentido.
Curada por Oliva Rucellai e Rita Balleri, a mostra propõe uma leitura inédita da evolução da cerâmica entre o século XVIII e o XIX. O fio condutor escolhido é a própria química da porcelana — a ciência que torna possível transformar barro e esmalte em superfícies translúcidas, brancas e frágeis ao mesmo tempo — e a sua relação com a pesquisa estética, o progresso técnico e as demandas do mercado e do gosto.
Ao percorrer as salas será possível ver uma ampla seleção de peças e documentos provenientes das coleções do Museo Ginori e do MIC. A intenção curatorial é clara: destacar a dialética entre a criatividade dos modelos e os limites impostos pela matéria; entre a investigação estética e o avanço científico; entre a tradição produtiva e a mutabilidade do gosto dos encomendantes. Em outras palavras, o visitante é convidado a observar como as superfícies e os decors são, ao mesmo tempo, resultado de um ofício e de um laboratório.
O percurso expositivo começa na primeira metade do século XVIII, quando Carlo Ginori, fascinado pela química e pelas possibilidades da matéria, funda a manufatura em sua villa próximo a Sesto Fiorentino. Daí em diante, a narrativa acompanha transformações técnicas — argilas, esmaltes, fornos, procedimentos de cozedura — e igualmente mudanças de linguagem decorativa, que espelham não apenas modas europeias, mas também a ambição industrial e científica de um país em transição.
É significativo que o acervo esteja provisoriamente fora de Doccia: essa condição evidencia um dilema contemporâneo do patrimônio — a tensão entre conservação e valorização. Enquanto a primeira é imperativa e exige prudência, a segunda reclama circulação, exposição e novas leituras que tornem o passado produtivo para o presente. Alchimia Ginori atua exatamente nesse intervalo, transformando o depósito em diálogo e o silêncio do arquivo em narrativa pública.
Para além da celebração dos objetos, a mostra é um convite a refletir sobre a cerâmica como um espelho do nosso tempo: as escolhas técnicas e estéticas dizem sobre redes de comércio, circulação de ideias, expectativas sociais e o papel da ciência na formação do gosto. Como um crítico que volta ao filme que mais marcou uma geração para entender o que mudou, o visitante sai com a sensação de ter observado não apenas peças belas, mas os estratos de um processo cultural e tecnológico.
Informações práticas: a exposição Alchimia Ginori 1737-1896. Arte e tecnica in manifattura abre ao público em 31 de janeiro no Museo Internazionale delle Ceramiche di Faenza. A curadoria é de Oliva Rucellai e Rita Balleri, e as peças provêm das coleções da Museo Ginori e do MIC.





















