Por Chiara Lombardi — Em uma iniciativa que lê a história como um filme em que antes alguns planos ficaram fora do corte, nasceu o Dicionário biográfico e temático das mulheres, uma obra em três volumes com mais de 2.500 páginas organizada pelo Istituto della Enciclopedia Italiana – Treccani. Dirigido pela italianista e historiadora da cultura Emma Giammattei, o projeto apresenta 650 perfis biográficos de mulheres que deixaram marca duradoura na Itália — ou nela viveram e se ligaram profundamente à sua história — do século XVIII até os primeiros decênios do século XXI.
Como quem reorganiza um arquivo cinematográfico para revelar cenas antes ocultas, o dicionário propõe uma partitura cronológica funcional que ultrapassa o automatismo das divisões por séculos: a intenção é mapear a rede histórica e geográfica do feminino, reconstruindo o mosaico complexo da “biografia feminina como vivido e como problema historiográfico”.
Os perfis recolhem trajetórias nas artes, na literatura, na ciência, na política, no jornalismo, na música, no esporte e nas práticas sociais, revelando tanto figuras-canônicas quanto vozes que a historiografia tradicional manteve à margem. Entre os nomes destacados na obra estão Grazia Deledda, Oriana Fallaci, Eleonora Duse, Rita Levi-Montalcini, Alda Merini, Elsa Morante, Carmen Sylva? — melhor: figuras tão diversas como Camilla Cederna, Margherita Sarfatti, Titina De Filippo, Sibilla Aleramo, Marisa Bellisario, Maria Goretti, Eleonora Fonseca Pimentel, Ada Gobetti, Camilla Ravera, Luisa Spagnoli, Tullia Zevi, Milva, Patrizia Cavalli, Monica Vitti, Suso Cecchi D’Amico, Valentina Cortese, Carla Fracci, Nilde Iotti, Miriam Mafai, Lea Massari, Mariangela Melato, Moira Orfei, Franca Valeri, Anna Maria Ortese, Michela Murgia, Raffaella Carrà, Giuni Russo, Rossana Rossanda, Franca Rame, Fernanda Pivano, Goliarda Sapienza, Inge Feltrinelli, Renata Tebaldi, Alida Valli, Lina Wertmüller e Tina Anselmi.
Segundo Emma Giammattei, diretora científica da obra, o dicionário nasce de “uma exigência ao mesmo tempo cognitiva e moral”: a constatação, durante a fase final do Dizionario biografico degli Italiani, de um ruído estrutural na representação entre o masculino e o feminino. Não se tratou apenas de preencher uma ausência retroativa, mas de devolver visibilidade ao que permaneceu fora do campo de visão, permitindo que o feminino entre de modo pleno na dinâmica histórica.
Giammattei sublinha que a obra dispõe de liberdade metodológica e se beneficia do avanço significativo dos estudos de história das mulheres e da gender history, encarando a história como processo aberto. Em outras palavras: não se trata de inserir mulheres em um cânone já editado, mas de reconstituir as tramas e as contradições que tecem a experiência feminina ao longo dos séculos — como se remontássemos uma película para recuperar intertítulos perdidos que mudam o sentido da narrativa.
Nos últimos anos, a Treccani intensificou ações e pesquisas voltadas para a presença feminina e a igualdade de gênero, um movimento editorial e institucional que reflete transformações mais amplas na paisagem cultural italiana e europeia. O Dicionário vem, portanto, como um reframe historiográfico: um espelho polido da memória coletiva que revela tanto o brilho quanto as sombras do passado.
Para leitores e leitoras interessados em entender o roteiro oculto da sociedade italiana — seus atores, suas ausências, seus retornos — esta obra funciona como um atlas biográfico e temático. Mais que curiosidade enciclopédica, oferece um instrumento crítico: a possibilidade de ler o presente com o vigor interpretativo de quem sabe que cada biografia é também um corte no tecido maior da história.






















