Em depoimento direto e técnico, Alberto Trentini descreveu a rotina e as circunstâncias de sua prisão na Venezuela. Preso em 15 de novembro de 2024 e libertado após 423 dias, em 12 de janeiro, o cooperante falou ao programa Che tempo che fa, apresentado por Fabio Fazio, sobre interrogatórios, condições de cárcere e a sensação de que os detidos estrangeiros eram tratados como peças de troca.
Segundo Trentini, por volta de janeiro do ano passado o diretor do presídio chegou a informar a outros detentos estrangeiros que “éramos peões de negociação”. Foi esse anúncio, relatou o cooperante, que ampliou a sensação de desespero: “Não sabia por que seríamos trocados, quando, e se a negociação daria certo”. O relato reúne dados cronológicos precisos e descreve uma sequência de práticas coercitivas.
Na primeira fase da detenção, destacou Trentini, predominou um forte desorientamento. Só conseguiu efetuar a primeira ligação para a família seis meses após o aprisionamento — uma chamada de cinco minutos. “Não saber quando acabaria, não ter assistência jurídica, foi muito duro”, disse.
O cooperante detalhou o procedimento logo após o encaminhamento inicial: dois dias depois do flagrante, foi levado a uma casa em Caracas, encapuzado e algemado, sentado numa cadeira por horas. Em seguida foi levado a uma sala excessivamente quente, onde um agente explicou o funcionamento da máquina da verdade e iniciou um interrogatório focado em terrorismo e espionagem — destaque ao fato de Trentini ser formado em História. Durante a sessão com sensores, ele suou e ouviu os agentes murmurar entre si com objetivo de provocá-lo e justificar, perante o sistema, sua detenção.
Sobre a dinâmica do momento da captura, Trentini narrou que apresentou o passaporte e que os agentes demonstraram curiosidade. Ordenaram que permanecesse no local e fizeram telefonemas. Cerca de uma hora depois, agentes do contraespionagem compareceram, exigiram a entrega do celular e promoveram um interrogatório extenso, estimado em quatro horas. O motorista do táxi que o acompanhava permaneceu do lado de fora e não foi chamado a prestar depoimento.
As condições do cárcere foram descritas como “muito, muito duras”. Havia água disponível para banho e para a higiene apenas duas vezes ao dia, em horários variáveis. Não havia oportunidades de lazer e o acesso a livros era escasso. Seus óculos foram apreendidos, o que comprometeu a visão; Trentini recuperou por sorte um par que lhe permitiu, entre outras coisas, enxergar o rosto de interlocutores e jogar xadrez — este último, disse, foi um presente de detentos colombianos.
Relatou não ter sofrido violência física direta, embora afirmasse que reprimendas físicas eram aplicadas a detentos sobre os quais pairava suspeita de ter cometido crimes. O que se repetiu, conforme o depoente, foi a violência psicológica: a incerteza contínua sobre a duração da detenção, a ausência de assistência jurídica e as repetidas falsas esperanças de libertação. Trentini descreveu a experiência como uma sucessão de ilusões de soltura; a mais dolorosa, contou, foi uma encenação feita por um guarda que fez com que acreditassem em uma libertação iminente — episódio que qualificou como tortura psicológica.
O relato de Alberto Trentini veio acompanhado de datas e elementos críveis que permitem um acompanhamento jornalístico rigoroso: prisão em 15/11/2024, libertação 423 dias depois em 12/01, longos interrogatórios, uso de polígrafo e privação de direitos básicos. A cobertura segue o critério de apuração e cruzamento de fontes, mantendo o foco nos fatos brutos e na tradução da realidade vivida pelo cooperante.
Este relato coloca novamente sob atenção internacional as práticas de detenção na Venezuela, especialmente em casos envolvendo estrangeiros e acusações relacionadas a segurança nacional. As informações expostas por Trentini servirão como base para novos questionamentos diplomáticos e para o monitoramento de condições prisionais por organizações de direitos humanos.






















