O mundo da moda perde um dos seus referentes históricos. Faleceu Valentino Garavani, o criador que transformou o desejo feminino em estruturas de seda, chiffon e numa tonalidade — hoje inconfundível — que ficou conhecida como Rosso Valentino. Não se tratava apenas de um estilista; tratava-se de um artesão do corpo e da imagem, com uma visão clara: a roupa como ampliação da personalidade, não como substituição.
Em declarações recorrentes ao longo da carreira, ele disse: “Ho sempre amato le donne. Ho cercato di renderle belle…”, frase que sintetiza sua prática profissional. Observador atento, quase com o rigor de um esteta renascentista, Valentino via nas mulheres graça, postura, fragilidade e força — elementos que traduzia em peças que realçavam a luz de quem as vestia.
A trajetória de Valentino ficou marcada por vínculos estreitos com figuras públicas que se tornaram suas musas. Entre elas, Jacqueline Kennedy, que escolheu um vestido em renda marfim para casar-se com Aristóteles Onassis em 1968. Esse episódio consolidou a imagem de Valentino como símbolo de uma elegância internacional, discreta e sofisticada, capaz de oferecer um abrigo estético em momentos de exposição e luto público.
A relação com Elizabeth Taylor também se apresenta como uma peça-chave nessa narrativa. Conta-se que, na première de Spartacus, em 1961, Taylor optou por uma criação de Valentino, abrindo caminho para que o Rosso Valentino brilhasse nos palcos e tapetes vermelhos do mundo com aquela sensualidade luxuosa que o estilista tanto cultivava.
Para Audrey Hepburn, embora Givenchy fosse seu porto seguro em Paris, Valentino representou uma paixão romana. Hepburn encarnou a linha mais pura do estilista: limpa, aristocrática e sutil. Os retratos em preto e branco que a mostram envolta em capas de organza atestam uma beleza que dispensa estridência.
Entre as musas nacionais, Sophia Loren ocupa lugar de destaque. A amizade entre os dois atravessou décadas. Valentino vestiu Loren em momentos decisivos, incluindo a cerimônia em que recebeu o Oscar Honorário, em 1991. Na conjunção entre a italiana de cinema e o estilista de Voghera, reside uma parte substantiva do orgulho italiano da casa de moda.
Sobre a cor que se tornaria marca registrada, a origem é quase mitológica: diz-se que, jovem, Valentino teve uma revelação cromática na Ópera de Barcelona — um vermelho que hoje sintetiza sua visão: energia vibrante, cadência régia e uma feminilidade roliça e potente. O Rosso Valentino é mais do que pigmento; é manifesto estético.
Para Valentino, a musa nunca foi figura passiva; era coautora, influência viva capaz de insuflar alma ao tecido. Esse posicionamento traduziu-se em roupas que nunca anularam a personalidade, mas a destacaram. O legado é técnico e simbólico: cortes que privilegiam o corpo, escolhas de materiais que respeitam a luz e a postura, e uma cor que virou assinatura.
Apuração e cruzamento de fontes mostram que sua obra permanece presente em coleções, acervos e memória pública. A perda é sentida tanto no circuito dos ateliers quanto nas redações e nos arquivos dos grandes eventos culturais do século XX e XXI. A realidade traduzida é simples: saiu de cena um dos últimos grandes arquitetos da elegância clássica, cuja influência continuará nas regras e na poesia da costura.
Reportagem de apuração rigorosa busca agora mapear homenagens oficiais e o legado institucional que permanecerá — de museus a arquivos privados — para que as criações de Valentino continuem sendo estudadas e usadas como referência técnica para futuras gerações.




















