Por Giulliano Martini — Apuração in loco, cruzamento de fontes e fatos brutos. Pesquisas recentes confirmam que os tubarões da Groenlândia (Somniosus microcephalus) são os vertebrados mais longevos do planeta. Estudos publicados na revista Nature Communications e reportagens no Smithsonian Magazine detalham como esses predadores das águas árticas sobrevivem por séculos e por que sua biologia pode oferecer pistas valiosas para a medicina humana.
Os exemplares mais velhos chegam rotineiramente perto dos 400 anos de idade — registros científicos apontam idades calibradas de até 392 anos em amostras analisadas — e estimativas sugerem vidas que podem ultrapassar 500 anos. Dada essa longevidade, não é especulativo afirmar que alguns desses indivíduos observavam, nas profundezas, mudanças históricas iniciadas no século XVIII: desde os primeiros colonos europeus liderados pelo missionário Hans Egede, a partir de 1721, até disputas contemporâneas por territórios como a mitológica Thule ou Extrema, atualmente alvo de interesse estratégico e de recursos.
O que explica essa resistência temporal? A apuração técnica mostra dois fatores relevantes. Primeiro, o crescimento é extremamente lento — cerca de 1 centímetro por ano — e a maturidade sexual chega por volta dos 150 anos de idade. Segundo, mecanismos genéticos avançados de reparação de DNA contribuem para a manutenção funcional de órgãos sensíveis, como a retina. A detecção desses mecanismos foi documentada em artigo publicado em janeiro na Nature Communications.
Pesquisadores identificaram segmentos genéticos ligados a proteínas envolvidas na reparação de quebras da dupla hélice do DNA, notadamente os genes ERCC1 e ERCC4. Estes genes codificam proteínas do sistema de reparo que, na hipótese técnica dos autores, sustentariam a integridade da retina por séculos, apesar das condições extremas do habitat — incluindo mergulhos até cerca de 3.000 metros, onde a luz quase não penetra.
Houve suposição anterior, com base em relatos e observações de campo, de que boa parte desses tubarões fosse praticamente cega devido à presença de parasitas oculares. A investigação recente apresenta um contrarrelato científico: embora parasitas estejam presentes, a arquitetura molecular detectada nos olhos permite uma preservação surpreendente da capacidade visual ao longo da vida.
Os tubarões da Groenlândia, chamados pelos Inuit de Eqalussuaq, são remanescentes de linhagens muito antigas de peixes cartilaginosos — precedendo, em parte, a diversificação de muitas plantas e dinossauros. Como testemunhas vivas, atravessaram eras: do declínio de assentamentos vikings no século XV ao retorno de colonizadores europeus no século XVIII, e hoje podem observar as pressões humanas atuais, incluindo interesse por extração de gás, petróleo, diamantes e terras raras na região ártica.
Relatos jornalísticos e geopolíticos já apontaram que iniciativas de anexação ou expansão de jurisdição — mencionadas com destaque nos debates públicos sobre Thule/Extrema — aumentam a probabilidade de exploração intensiva. Para os cientistas, as implicações ambientais dessa pressão somam-se ao valor biológico excepcional desses peixes: preservar populações que vivem séculos tem relevância direta para entender processos de envelhecimento, reparo de DNA e manutenção sensorial.
Em suma, a realidade traduzida pelos dados é clara: os tubarões da Groenlândia não são apenas curiosidades históricas; são laboratórios naturais de longevidade. A limpeza de narrativas exige que políticas públicas e agendas científicas considerem, com urgência, a proteção desses habitantes centenários do Ártico e o potencial translacional de suas descobertas genéticas para doenças humanas, como a degeneração macular.





















