Tribunal de Bolonha acolheu parcialmente a ação promovida por Loretta e Patrizia Amadori e ordenou que as duas voltem a ser acionistas diretas da sociedade de controle do grupo agroalimentar Amadori. A decisão, proferida em caráter civil, reabre um contencioso familiar que coloca em xeque a arquitetura societária montada nos últimos anos em torno da família fundadora.
No centro da disputa está a sociedade Finama Holding, apontada pelo tribunal como instrumento intermediário que teria alterado os equilibrios proprietários entre os herdeiros do fundador. A peça judicial considera que a estrutura criada em 2021, segundo a qual participações dos quatro filhos de Francesco Amadori foram canalizadas para holdings, acabou por concentrar poderes decisórios nas mãos dos irmãos Flavio e Denis, enquanto Loretta e Patrizia permaneceram afastadas da gestão operacional.
O grupo Amadori, com sede em Cesena, emprega cerca de 9.300 pessoas e registra receitas superiores a 1,7 bilhões de euros. Segundo os autos, o pai e fundador — hoje com 94 anos — havia atribuído participação de 27% a cada um dos filhos Flavio e Denis e 23% a Loretta e Patrizia. As quotas dos irmãos foram subsequentemente integradas em outra sociedade, a Fda, garantindo-lhes controle de fato do grupo, fato que motivou a ação legal das duas irmãs.
O Tribunal entendeu que o uso da Finama Holding como estrutura intermediária teria modificado o equilíbrio patrimonial entre os herdeiros, reconhecendo o direito das requerentes a reassumir posição de acionistas diretas da controladora. A decisão, segundo a sentença, visa restaurar a transparência do quadro societário e assegurar a proteção das prerrogativas de todos os sócios.
Em nota divulgada após o pronunciamento, a sociedade Francesco Spa contestou as conclusões, afirmando que “nenhuma prevaricação ocorreu em relação a Loretta e Patrizia Amadori” e ressaltando que as irmãs mantêm as suas quotas em Amadori Spa sem perda de direitos. A empresa também defendeu a conformidade dos atos do seu conselho de administração com a arquitetura do grupo, baseada em um sistema de holdings de participações societárias.
Para especialistas consultados durante a apuração, a sentença do Tribunal de Bolonha tem efeitos práticos e simbólicos. Na prática, exige ajustes societários que podem alterar o desenho do controle e as dinâmicas de governança; simbolicamente, representa um alerta sobre a necessidade de maior clareza em estruturas familiares complexas que administram grupos econômicos relevantes.
O caso, com repercussão antecipada hoje pelo Corriere della Sera, será objeto de novas movimentações jurídicas e possivelmente de recursos. A decisão judicial já produz efeitos imediatos sobre o registro de participações e poderá demandar a reconfiguração de instrumentos societários utilizados nos últimos anos para organizar a sucessão e o controle acionário.
Esta reportagem baseia-se em análise dos documentos judiciais, em nota oficial da Francesco Spa e em cruzamento de fontes próximas ao caso. Continuaremos a acompanhar a tramitação do processo e os desdobramentos corporativos, com apuração in loco e verificação técnica dos registros societários.






















