Por Giulliano Martini. Há um conjunto de fatos que precisa ser reconstruído com precisão técnica para entender a cadeia de erros que cercou o transplante de coração com resultado trágico. Na manhã desta sexta, os Carabinieri notificaram um avviso di garanzia por lesões culposas gravíssimas e efetuaram o sequestro dos aparelhos celulares de seis pessoas envolvidas no caso ligado ao hospital Monaldi, em Nápoles.
O procedimento de apreensão visa permitir a análise de mensagens, chamadas, notas de voz e eventuais imagens que possam esclarecer o que ocorreu na noite de 23 de dezembro, quando o pequeno Domenico, de 2 anos, natural de Nola, recebeu um novo coração — um órgão que, segundo a apuração preliminar, estava comprometido pelo transporte inadequado.
O sequestro dos telefones foi realizado enquanto o menino, já submetido ao transplante, permanecia em coma profundo e ligado a aparelhos no Monaldi. Inicialmente os indiciados foram comunicados por lesões culposas graves; contudo, os inquéritos avançam e uma nova notificação da Procuradoria de Nápoles deverá incluir a hipótese de homicídio culposo. Do ponto de vista formal, o quadro processual foi alterado.
Fontes das investigações indicam que o órgão doado — proveniente de uma criança de 4 anos, de Bolzano — foi transportado em um recipiente inadequado e refrigerado com gelo seco, condição que teria feito a temperatura atingir níveis tão baixos a ponto de comprometer a funcionalidade do coração. Em linguagem técnica utilizada pelos peritos, o órgão teria sofrido um dano compatível com o que foi descrito como “queimado” pelo frio extremo.
A trajetória clínica de Domenico piorou progressivamente após o implante. As condições tornaram impossível a realização de um novo transplante e culminaram no desfecho fatal. A autópsia ainda precisa ser realizada e deverá oferecer dados médicos complementares sobre as causas imediatas da morte e sobre o impacto do transporte no tecido do órgão.
As autoridades querem agora cruzar evidências digitais e testemunhais: o que médicos e equipe cirúrgica se disseram, como foi coordenado o transporte, quem autorizou disposições logísticas e se houve falhas nos protocolos de preservação. O objetivo investigativo é determinar responsabilidades objetivas e eventuais omissões no processo de cadeia de custódia do órgão.
Em nota, os advogados Alfredo Sorge e Vittorio Manes, defensores do cardiochirurgo Guido Oppido, afirmaram aguardar “a reconstrução dos eventos que os inquirentes e os exames técnicos certamente oferecerão”, e sustentaram que o médico “fez tudo o que era profissionalmente devido e humanamente possível” para salvar Domenico, atuando contra o tempo. A manifestação formal reafirma o luto e o respeito pelo sofrimento da família.
Na comunidade, a comoção persiste. Depois de uma vigília em Nola, familiares e moradores seguem em fluxo contínuo ao Monaldi para prestar solidariedade; o corpo do menino permanece sob sequestro para exames médico-legais. A investigação prossegue com a análise forense dos dispositivos apreendidos e com perícias técnicas sobre o transporte e a preservação do órgão.
Este é um caso que exige checagem rigorosa e cruzamento de fontes: a verdade processual será construída com dados brutos, perícias laboratoriais e registro documental, evitando conjecturas e preservando a precisão dos fatos.






















