Giulliano Martini — Na investigação sobre o caso do menino de 2 anos que recebeu um transplante de coração danificado em Nápoles, o cardiochirurgião Luigi Chiariello identifica como ponto central o processo de conservação do órgão. Em entrevista à Adnkronos Salute, o especialista, professor aposentado da Universidade de Roma Tor Vergata e conhecido por ter operado o Papa Ratzinger em 2012, afirma que é “muito difícil julgar a decisão dos cirurgiões” sem considerar o quadro operacional em que a escolha foi tomada.
Segundo o relato técnico de Chiariello, disponível para cruzamento com protocolos hospitalares, o erro inicial parece ter ocorrido já na remessa do órgão: “a impressão é que o erro fundamental foi feito em partenza, cioè quando è stato inviato un cuore conservato male con ghiaccio secco invece che con ghiaccio normale” — ou seja, uso inadequado de gelo seco em vez de gelo padrão durante o transporte, comprometendo a integridade do coração.
Nos protocolos de transplante, observa o especialista, assim que o coração doador parte para o transporte começa-se a operar o receptor para reduzir o tempo entre a retirada e o implante. “Quando o órgão chega, o tórax do pequeno receptor frequentemente já está preparado para receber o implante, para reduzir os tempos entre doação e implantação”, explicou. Diante de um órgão visivelmente comprometido, a equipe teria se confrontado com uma decisão imediata: interromper o procedimento com o paciente já operado ou prosseguir com um coração de conservação duvidosa.
Chiariello descreve a lógica prática que pode ter norteado a opção: implantar o órgão, ainda que imperfeito, poderia ser menos arriscado do que fechar o paciente sem alternativa disponível. “Talvez o novo coração pudesse funcionar como ponte, aguardando um transplante definitivo. Penso que possa ter sido isso: os cardiochirurgi possono aver ritenuto, nei tempi rapidissimi, meno pericoloso mettere questo cuore piuttosto che richiudere un bambino senza avere alternative” — uma avaliação de risco em situação de tempo crítico.
O especialista ressalta, porém, que essa decisão precisaria ter sido comunicada aos familiares com clareza: “tudo isso devia ser dito aos parentes; devia-se explicar que se escolheu a opção de menor risco conhecida naquele momento”. Chiariello também recorda a dificuldade intrínseca de encontrar um doador pediátrico compatível, um fator que complica qualquer decisão emergencial: “encontrar um coração de uma criança muito pequena não é fácil, considerando que o doador deve ser outra criança falecida por outras causas”.
Fechando sua avaliação técnica, Chiariello defende que os cirurgiões que atuaram no caso provavelmente “tentaram fazer o melhor naquele momento” e que pode não ter havido certeza absoluta sobre a má conservação do órgão no instante da implantação. A análise do ocorrido exige, portanto, apuração detalhada dos procedimentos de transporte e das comunicações internas, sempre com cruzamento de fontes e verificação documental, etapas centrais para um relatório final de responsabilidade clínica.
Apuração em andamento. Espresso Italia acompanha o caso e acompanhará novas informações técnicas e administrativas sobre o protocolo de conservação de órgãos e as decisões intraoperatórias.






















