Por Giulliano Martini, Espresso Italia. Apuração em campo e cruzamento de fontes indicam uma mudança de hábito entre jovens italianos: o spritz — um cocktail de alto teor alcoólico — tem sido consumido rotineiramente na manhã, antes das aulas ou durante intervalos, criando um novo padrão de exposição precoce ao álcool.
Dados do Observatório sobre estilos de vida Mohre apontam que, na Itália, há cerca de 1,2 milhão de consumidores em situação de risco, dos quais metade são menores. A faixa mais afectada são estudantes universitários em torno dos 20 anos, que relatam ingestão regular de bebidas destiladas a partir das 9h30.
“O consumo de superalcoólicos em horário matinal provoca efeitos imediatos sobre a capacidade cognitiva, prejudicando atenção, memória e rendimento escolar”, afirma Johann Rossi Mason, diretora do Observatório Mohre. O alerta técnico é claro: o cérebro ainda está em desenvolvimento nos jovens adultos e conclui sua maturação por volta dos 25 anos, tornando-os particularmente vulneráveis aos danos neurobiológicos do álcool.
O cenário é confirmado por Emanuele Scafato, consultor da OMS e membro do Advisory Board da SIA (Società Italiana di Alcologia): a normalização do consumo entre jovens evidencia uma falha persistente nas políticas de prevenção. Scafato descreve uma «inerzia institucional» que permitiu a difusão de práticas de risco. Segundo o especialista, a procura por álcool logo pela manhã — seja spritz, vinho, cerveja ou cocktail — é um dos sinais centrais da dependência.
Os números citados por Scafato colocam em relevo a dimensão do problema: existem cerca de 780 mil consumidores considerados nocivos com transtorno por uso de álcool que necessitariam de tratamento; porém, apenas cerca de 68 mil são efetivamente acolhidos e tratados pelo SSN, deixando 93% desses casos sem intervenção especializada.
Para Fabio Beatrice, diretor científico do Mohre, a resposta deve ser baseada em evidência e progressividade: informação precisa sobre os riscos reais, promoção de alternativas sociais sem álcool e apoio psicológico para compreender as motivações do consumo matinal. “Não se trata de proibicionismo, mas de educação para escolhas conscientes”, afirma Beatrice, articulando medidas de saúde pública que caminhem entre prevenção, acesso a tratamento e intervenções comunitárias.
Do ponto de vista jornalístico e técnico, o quadro exige ações coordenadas: monitoramento mais rigoroso dos padrões de consumo jovem, reforço das campanhas educativas em escolas e universidades, e maior capacidade operacional do sistema de saúde para identificar e tratar jovens em risco. A normalização do spritz ao amanhecer não é um comportamento inócuo; é um sinal de alerta que conjuga prejuízos cognitivos imediatos e risco ampliado de dependência e doenças alco-relacionadas, inclusive o aumento do risco de câncer.
Conclusão prática: a realidade traduzida por dados e testemunhos exige medidas claras. Famílias, instituições educacionais e autoridades sanitárias precisam readquirir a capacidade de controle informal e de prevenção, interrompendo a normalização do consumo precoce. A apuração, aqui, revela fatos brutos e incontornáveis: a exposição repetida ao álcool na juventude tem custos mensuráveis para o indivíduo e para a coletividade.
Espresso Italia continuará acompanhando o desenvolvimento desta investigação e as respostas institucionais às recomendações científicas.






















