Por Giulliano Martini – As rotinas do Centro Grandi Ustionati do hospital Niguarda, em Milão, são marcadas por um rigor clínico que não comporta atalhos: protocolos de espera, avaliações contínuas e suporte familiar constante. É nesse cenário que permanece a família de Sofia, a adolescente de 16 anos, estudante do Liceo Virgilio, vítima do incêndio em Crans Montana na noite de Ano-Novo.
Em relato recolhido após apuração e cruzamento de fontes, o irmão mais velho, Mattia Donadio, 26 anos, descreve dias imersos na terapia intensiva: “Estamos sempre juntos, optamos por não nos revezar”, explicou. A família aproveita as primeiras horas do dia para tratar de pendências e dedica o restante do tempo ao leito: “Passamos o dia inteiro aqui”.
O quadro clínico de Sofia exige prudência: os médicos e a equipe informaram que a recuperação não se mede em semanas. “A cura será um processo longo, não se fala de meses, mas de anos. O risco de infecções é altíssimo”, disse o irmão após conversar com a equipe médica. Além das extensas queimaduras, preocupam os danos por inalação de fuligem e substâncias tóxicas liberadas por painéis fonoabsorventes no local do incêndio.
O impacto do acontecimento transcende o corpo lesionado. Segundo Mattia, vários parentes desenvolveram sintomas compatíveis com uma síndrome pós-traumática: reações de medo intenso em espaços fechados, desconforto em estacionamentos subterrâneos e uma busca imediata pela saída de emergência sempre que entram em locais similares aos da tragédia. O hospital, informa a família, tem oferecido apoio psicológico contínuo para pacientes e acompanhantes.
Ao reconstruir a sequência de eventos daquela madrugada, Mattia relata horas de angústia e desorientação. Sofia estava na casa de uma colega quando o incêndio começou; os irmãos chegaram à Suíça em caráter de emergência e encontraram-se no epicentro do resgate. “A reconhecemos pelas unhas”, recorda Mattia, confirmando que dois jovens franceses prestaram os primeiros socorros. Nos primeiros momentos de transferência entre hospitais, a família chegou a perder seu paradeiro por cerca de três horas. Após contato com diversas unidades, localizaram-na em Lausanne.
O irmão também descreveu um padrão observado entre os jovens feridos: casos que à primeira vista pareciam estáveis e conversavam, em seguida apresentavam deterioração súbita. Atualmente, Sofia permanece em terapia intensiva, recebendo estímulos verbais e presença familiar durante breves despertares. “Falamos muito com ela. Isso ajuda tanto a filha quanto a nós”, disse Mattia, lembrando que ver a paciente ligada a aparelhos é um teste de resistência emocional.
Sobre responsabilidades, a família adota postura firme e técnica: “Buscamos justiça, não vingança. Temos confiança na magistratura”. Reforçam a necessidade de um processo transparente e objetivo para apurar causas e eventuais negligências.
A resposta da sociedade tem sido massiva e transfronteiriça. O Niguarda recebeu doações, ofertas de auxílio de restaurantes e cidadãos, além de campanhas de arrecadação. Na Suíça, Mattia relata que cerca de duzentas famílias ofereceram hospedagem gratuita a parentes enquanto Sofia esteve internada em Lausanne: “Quando ela estiver em condições, queremos apresentar quem nos acolheu”.
O caso segue sob investigação e em acompanhamento clínico intensivo. A família permanece unida e orientada por uma linha de conduta centrada no presente: acompanhamento médico, apoio psicológico contínuo e confiança no trabalho das autoridades. A realidade traduzida por quem está no front é direta: a reconstrução da saúde de Sofia será longa, técnica e monitorada por profissionais especializados.






















