Por Giulliano Martini — Em apuração direta com o professor Antonio Stigliano, endocrinologista e responsável pelo Ambulatório da AOU Sant’Andrea, explico de forma objetiva o que caracteriza a síndrome de Cushing, suas causas, sinais clínicos e opções de tratamento. A informação aqui é fruto de cruzamento de fontes clínicas e da prática consolidada do serviço de endocrinologia do hospital.
A síndrome de Cushing foi descrita e recebeu o nome do cirurgião Harvey Williams Cushing. Trata-se de um quadro clínico decorrente da produção cronicamente elevada de cortisol circulante. Na prática, o termo funciona como um guarda-chuva para diferentes condições que compartilham esse excesso hormonal.
As causas mais frequentes são:
- Adenoma hipofisário produtor de ACTH, que estimula de forma inapropriada as glândulas suprarrenais a produzirem cortisol.
- Lesões nodulares em uma ou ambas as suprarrenais, com produção autonômica de cortisol, independente do ACTH hipofisário.
- Secreção ectópica de ACTH por neoplasias localizadas fora da hipófise ou das suprarrenais.
É uma condição rara, com incidência estimada em 2-3 casos por milhão de pessoas, afetando com maior frequência o sexo feminino na proporção aproximada de 3:1, especialmente entre os 25 e 40 anos.
Os sinais clínicos decorrem dos efeitos sistêmicos do excesso de cortisol. Entre os achados mais comuns estão o ganho ponderal com acúmulo de gordura abdominal, a característica do rosto arredondado — a chamada face em lua cheia — e a pele fina, que se rompe com facilidade gerando estrias finas e violáceas. Outros sinais incluem fraqueza muscular, hipertensão arterial, alteração do metabolismo da glicose com intolerância ou diabetes, osteoporose e distúrbios do humor, sendo a depressão frequentemente relatada.
No sexo feminino, um sinal clínico que tem valor diagnóstico é o hiperandrogenismo: aumento da pilosidade facial e corporal que costuma vir associado a irregularidades do ciclo menstrual, podendo evoluir até à amenorreia. Em homens, efeitos notáveis incluem redução do desejo sexual e comprometimento da fertilidade.
O diagnóstico requer uma avaliação laboratorial e de imagem cuidadosa — dosagens de cortisol em diferentes momentos, testes de supressão com dexametasona, medidas de ACTH e estudos imagiológicos da hipófise e suprarrenais. O tratamento depende da causa: adenomas hipofisários podem ser manejados cirurgicamente ou com terapias específicas; lesões suprarrenais frequentemente exigem adrenalectomia; e neoplasias produtoras de ACTH requerem abordagem oncológica dirigida. Terapias farmacológicas para controlar a produção de cortisol são opções em cenários selecionados ou enquanto se planeja intervenção definitiva.
Como ressalta o professor Stigliano, o cortisol regula muitas vias metabólicas. Seu excesso produz um conjunto de sinais e riscos que demandam diagnóstico precoce e manejo multidisciplinar — endocrinologia, cirurgia, radiologia e oncologia quando necessário. Em época de conscientização sobre doenças raras, recordar os sinais — face em lua cheia, pele fina, ganho de peso abdominal e hiperandrogenismo nas mulheres — pode acelerar a suspeita clínica e reduzir o atraso diagnóstico.
Este é um raio-x do cotidiano da endocrinologia: fatos brutos, verificados e cruzados com especialistas para oferecer ao leitor a realidade sem ruídos. Para avaliação individual, a recomendação permanece: procure um serviço de endocrinologia com experiência em doenças corticosuprarrenais.






















