Uma svástica feita com spray de tinta preta apareceu no pátio do condomínio da via Bodoni, no bairro de Testaccio, em Roma. O local é reconhecido por ter sido cenário das filmagens de “C’è ancora domani”, longa-metragem de Paola Cortellesi que obteve grande repercussão, sucessos de bilheteria e levou às telas um recorte histórico sobre a conquista do direito de voto pelas mulheres na Itália.
O ato foi recebido como um ultraje em um espaço que, desde a circulação do filme, assumiu significado público e simbólico — frequentado por moradores, turistas e interessados na memória ligada à obra. A presença do símbolo nazista no muro reacende debates sobre a violência política e a apropriação de lugares de memória.
Em declaração à reportagem, Guglielmo Bianchi, secretário de Testaccio da AVS, disse que “esta inscrição manifesta o clima de violência política que estamos percebendo no rione: a dezembro também tivemos um ato de vandalismo em nossa sede. Não parecem mais atos casuais, como escrever em um muro escolar. Estão-se escolhendo cada vez mais lugares que têm um valor”. Bianchi destacou a reação imediata da comunidade: “Também isto é um sinal, de um rione que não aceita essas coisas e se ativou de imediato”.
Matteo Morelli, filiado ao PD local, qualificou o episódio como preocupante, recordando que são fatos inéditos para a área, tradicionalmente com forte identidade de esquerda. “Sou propenso a pensar que seja uma travessura de jovens, mas em um clima que legitima este tipo de gesto. Se quem fez o símbolo conhece sua história e o que a svástica representa, não posso afirmar. Preocupados? Não, mas começamos a desenhar um quadro de preocupação que aqui não existia”, afirmou.
Para manter a atenção sobre o caso, os partidos PD e AVS, em coordenação com a ANPI, convocaram um presídio para a segunda-feira seguinte, às 17h30, em frente ao número 100 da via Bodoni. O objetivo declarado é demonstrar repúdio público e reforçar a vigilância comunitária sobre atos que atacam símbolos de memória coletiva.
O episódio levanta questões práticas e simbólicas: o ataque ao muro de um cenário cinematográfico que se transformou em lugar de memória revela como espaços urbanos associados à história e à cultura podem ser alvos de mensagens políticas extremistas. Especialistas em memória pública alertam que a recorrência de tais incidentes exige ações de proteção e políticas municipais de conservação desses locais.
O caso em Testaccio será acompanhado por órgãos locais e associações civis. A comunidade organizou limpeza e registro fotográfico do ato para eventual procedimento policial. A mobilização prevista para o final da tarde da próxima segunda pretende reforçar o caráter cívico da resposta e prevenir novos episódios.
Apuração in loco, cruzamento de fontes locais e falas oficiais compõem o levantamento desta reportagem. A realidade traduzida aponta para uma comunidade que recusa instrumentos de intimidação e busca respostas institucionais e sociais para um problema que extrapola a pichação comum e toca a memória democrática do país.






















