Por Giulliano Martini | Espresso Italia
O mal de Parkinson é frequentemente associado ao tremor como sinal de alerta. No entanto, pesquisas realizadas nas últimas duas décadas mostram que a doença costuma ser precedida por uma série de sintomas não motores que aparecem anos — às vezes décadas — antes das manifestações de movimento. Apuração in loco e cruzamento de fontes médicas indicam quatro sinais recorrentes que definem a fase prodrômica do Parkinson.
Como explica a professora Rachel Dolhun, neurologista da Michael J. Fox Foundation for Parkinson’s Research, “há aspectos do Parkinson que não dizem respeito ao movimento”. A realidade traduzida pelos estudos é que a doença afeta o organismo de forma sistêmica e não apenas o sistema motor.
O Parkinson é um dos distúrbios neurológicos com maior prevalência global. Estima-se que os casos ultrapassem 25 milhões até 2050. Apenas 10–15% dos casos têm componente hereditário claramente identificado; a maioria permanece sem causa conhecida. Há tratamentos para controlar sintomas, mas não existe cura definitiva. A detecção precoce permite intervenção mais rápida e pode preservar qualidade de vida — por isso a identificação dos sinais prodromais é crucial.
Por que esses sinais aparecem tão cedo
A doença destrói neurônios produtores de dopamina na substantia nigra, área essencial para o controle do movimento. Quando surgem os sintomas motores típicos, estudos indicam que entre 50% e 70% desses neurônios já não estão mais ativos. Antes desse ponto de perda massiva, o Parkinson manifesta mudanças em sistemas que regulam olfato, sono, trato gastrointestinal e humor — pistas valiosas para um diagnóstico precoce.
Os quatro sinais que precedem o tremor
1) Perda do olfato (anosmia)
Mais de 90% das pessoas com Parkinson apresentam redução progressiva do olfato. Ronald Postuma, professor de neurologia e neurocirurgia na McGill University, estima que a perda do olfato pode ocorrer até 20 anos antes do diagnóstico. Indivíduos com anosmia têm risco aproximadamente cinco vezes maior de desenvolver Parkinson, segundo estudos longitudinais. O processo é gradual e muitas vezes passa despercebido.
2) Transtorno comportamental do sono REM (RBD)
O RBD envolve realização física de sonhos — chutar, gritar ou mover-se violentamente durante o sono REM — e é um forte preditor de doenças sinucleinopatias, incluindo o Parkinson. Pacientes com RBD idiopático têm probabilidade elevada de desenvolver distúrbios neurodegenerativos ao longo de anos, tornando o distúrbio do sono um marcador clínico relevante.
3) Constipação crônica
Alterações gastrointestinais, particularmente constipação que precede sintomas motores por uma década ou mais, são comuns. Evidências sugerem que alterações no trato digestivo podem ser reflexo inicial do acúmulo de proteína alfa-sinucleína — associada ao Parkinson — ou de disfunção autonômica que antecede a degeneração dopaminérgica.
4) Depressão e alterações de humor
Sintomas psiquiátricos como depressão, ansiedade e apatia são observados com frequência na fase prodrômica. Embora não sejam específicos, quando combinados com outros sinais — anosmia, RBD, constipação — elevam a suspeita clínica.
Implicações clínicas e caminhos futuros
Identificar a fase prodrômica tem implicações diretas para a pesquisa e para a prática clínica: permite o desenho de estudos de intervenção precoce e orienta vigilância direcionada em indivíduos de risco. Ainda faltam biomarcadores simples e amplamente validados para triagem populacional; por enquanto, a combinação de sinais clínicos e exames complementares é a estratégia mais prática.
O desafio é transformar esses sinais em protocolos de rastreio com sensibilidade e especificidade suficientes para evitar alarmes desnecessários sem perder oportunidades de diagnóstico precoce. A resposta passa por testes clínicos, avanços em imagens cerebrais e desenvolvimento de marcadores biológicos.
O raiox do cotidiano mostra que a atenção a sintomas aparentemente banais — perda de olfato persistente, distúrbios do sono, constipação crônica e alterações de humor — exige abordagem médica qualificada. A objetividade do jornalismo de apuração, somada ao rigor científico, é essencial para separar fatos brutos de especulação e orientar pacientes e profissionais em busca de melhores resultados.
Se você nota um ou mais desses sinais, procure avaliação neurológica para acompanhamento e investigação adequada. A realidade traduzida aqui é simples: quanto mais cedo a identificação, maior a chance de manejar a doença com menos perda funcional.






















