Por Giulliano Martini — Uma revisão internacional publicada na revista Nature Reviews Disease Primers consolida evidências de que as complicações neurológicas e psicológicas pós-COVID — o chamado Neuro‑Covid — são uma realidade clínica com impacto duradouro sobre a saúde pública. Com base em apuração e cruzamento de fontes científicas europeias e norte‑americanas, o trabalho descreve o quadro clínico, estimativas de incidência e prioridades de pesquisa para a era pós‑pandêmica.
O estudo estima que o Long‑Covid atinja entre 80 e 400 milhões de pessoas no mundo. A incidência varia de 5% a 20% na população geral e pode chegar a 50% entre pacientes que foram hospitalizados durante a fase aguda. Uma parcela relevante desses doentes apresenta sintomas que envolvem o sistema nervoso central e o sistema nervoso periférico, com consequências persistentes na qualidade de vida e na capacidade laboral.
Entre os sinais e sintomas mais frequentes estão o chamado brain fog (névoa mental), déficits de memória e atenção, fadiga crônica, cefaleia, distúrbios do sono, quadros de ansiedade e depressão e neuropatias periféricas. O relatório, que contou com participação da Universidade degli Studi di Milano e outros centros de pesquisa internacionais, apresenta consenso sobre os principais mecanismos patobiológicos associados ao Neuro‑Covid, ainda que reconheça lacunas importantes.
Os autores ressaltam que a diagnose continua sendo predominantemente clínica e que faltam biomarcadores específicos e terapias direcionadas. Diante disso, a gestão do paciente exige uma abordagem multidisciplinar, focalizada no controle sintomático e no acompanhamento de longo prazo. Serviço de reabilitação neurológica, psicoterapia, suporte ocupacional e monitorização continuada fazem parte das recomendações pragmáticas.
O impacto social e econômico recai de modo desproporcional sobre mulheres, trabalhadores em maior exposição e populações com menor condição socioeconômica. A combinação entre sintomas incapacitantes e acessos reduzidos a cuidados especializados amplia o risco de exclusão laboral e queda na renda familiar.
Em termos de pesquisa, o artigo aponta quatro prioridades: (1) padronização de definições e instrumentos diagnósticos; (2) aprofundamento dos mecanismos neurobiológicos que sustentam os sintomas; (3) realização de ensaios clínicos controlados para novas intervenções terapêuticas; e (4) fortalecimento de estratégias de prevenção e vigilância, reconhecendo o Neuro‑Covid como condição crônica de relevância global.
Há especial atenção aos efeitos de longo prazo em indivíduos infectados nas primeiras ondas pandêmicas. Pesquisadores advertem que a infecção por SARS‑CoV‑2 pode ter desencadeado mecanismos biológicos capazes de acelerar processos neurodegenerativos, elevando, ao longo do tempo, o risco de doenças como Parkinson e Alzheimer. Em consequência, recomenda‑se a manutenção de sistemas de vigilância neuroepidemiológica e a realização de controles neurológicos periódicos em pessoas que tiveram formas graves da doença.
Em resumo, a realidade traduzida pelo estudo é clara: o Neuro‑Covid impõe um desafio persistente à saúde pública. A resposta exigirá padronização diagnóstica, pesquisa translacional, investimento em ensaios terapêuticos e políticas públicas que garantam seguimento clínico e apoio socioeconômico aos afetados. Essa é a evidência crua — cruzada e verificada — que profissionais e gestores de saúde devem incorporar com urgência às práticas de vigilância e cuidado.






















