Antonino Zichichi morreu aos 96 anos. Figura central da física italiana do pós-guerra, Zichichi deixa legado científico e institucional marcante, notadamente como fundador dos Laboratórios Nacionais do Gran Sasso, um dos polos de referência da pesquisa subnuclear no mundo.
Nascido em Trapani, em 1929, Zichichi consolidou carreira acadêmica e de pesquisa que o colocou à frente de grandes centros internacionais. Professor emérito de Física Superior na Universidade de Bolonha, presidiu o Instituto Nacional de Física Nuclear (INFN) entre 1977 e 1982 e, em 1962, criou o Centro Interdisciplinar para a Cultura Científica “Ettore Majorana” em Erice, iniciativa que impulsionou o diálogo entre ciência e sociedade.
No plano experimental, sua passagem por laboratórios como o Fermilab, em Chicago, e o CERN, em Genebra, marcou etapas decisivas. Em 1965, dirigiu o grupo que observou pela primeira vez o antideutrônio — partícula de antimatéria composta por um antipróton e um antineutrón — resultado que figurou entre as evidências de ponta sobre a composição subnuclear.
O espectro de contribuições de Zichichi inclui descobertas e invenções: da observação de antimatéria nuclear à produção de pares de mésons pesados com estranheza positiva e negativa, prova da existência do número quântico de estranheza; da investigação da energia efetiva na QCD a soluções tecnológicas, como um circuito eletrônico para medir tempos de voo de partículas subnucleares e uma técnica para construir campos magnéticos polinomiais de alta precisão.
Figura por vezes controversa, Zichichi conciliava seu compromisso científico com convicções pessoais profundas. Católico declarado, manifestou críticas às bases da teoria darwiniana da evolução em alguns de seus posicionamentos e expressou ceticismo sobre a extensão do papel humano nas mudanças climáticas, posturas que geraram debates no meio acadêmico e público.
Defensor enfático da divulgação científica, acreditava que tornar a ciência acessível ao grande público era dever do pesquisador. Utilizou televisão e, mais recentemente, redes sociais para comunicar resultados e entusiasmar audiências. “Não existe limite à divulgação, se o fim é nobre”, disse em declarações públicas, argumentando que a ciência deve permanecer rigorosa no método, mas também capaz de falar ao coração para atrair novos talentos.
O balanço institucional de sua trajetória é inequívoco: além da fundação do Gran Sasso e do Centro Ettore Majorana, Zichichi representou uma voz ativa na promoção da pesquisa italiana em cenário internacional, estabelecendo conexões duradouras com laboratórios e programas de colaboração transnacional.
Esta reportagem foi produzida com cruzamento de fontes históricas e registros institucionais, privilegiando os fatos consolidados sobre uma carreira de quase sete décadas dedicada à pesquisa, ensino e comunicação científica. A memória científica de Antonino Zichichi permanecerá atrelada tanto às realizações experimentais quanto ao debate público que estimulou sobre ciência, fé e sociedade.



















