Por Giulliano Martini — Roma. O juiz Corrado Carnevale morreu em Roma aos 95 anos. Nascido em Licata (Agrigento) a 9 de maio de 1930, Carnevale foi presidente da primeira seção penal da Corte di Cassazione e figura central no mapa judiciário da Itália nas últimas décadas do século XX.
Reconhecido por decisões que provocaram amplo impacto, Carnevale assinou sentenças de anulação em processos de grande repercussão, incluindo julgamentos sobre os mandantes do assassinato do magistrado Rocco Chinnici, os desdobramentos das explosões de Piazza Fontana, a operação conhecida como Pizza Connection e casos ligados à Banda della Magliana. Essas sentenças, muitas vezes classificadas pela imprensa como exceções, consolidaram no imaginário público o apelido que o perseguiu: o juíz “ammazzasentenze”. Carnevale, contudo, sempre rejeitou essa etiqueta e defendia uma visão formalista e garantista do direito.
Na década de 1990, ele foi alvo de investigação por suposto concurso externo em associação mafiosa. Após processo, foi absolvido definitivamente com a fórmula “porquanto o fato não sussiste”. Entre 1993 e 2007 esteve suspenso do serviço; posteriormente foi reintegrado à Corte di Cassazione e aposentou-se em 2013. O velório e as homenagens seguem agora para o rito fúnebre: os funerais estão marcados para sexta-feira, às 15h, na igreja de Cristo Re, em Viale Mazzini, Roma.
Formado em direito pela Universidade de Palermo aos 21 anos — com o máximo dos votos e um ano de antecedência —, Carnevale foi aprovado em primeiro lugar no concurso para a magistratura. Foi nomeado ouvidor judicial a 17 de dezembro de 1953, passou por cargos de juiz de tribunal, conselheiro de corte de apelação e, em 1972, tornou-se conselheiro de Cassação. A 1.º de dezembro de 1985, aos 55 anos, tornou-se o mais jovem presidente de seção da Corte di Cassazione até então.
Do ponto de vista institucional, o período em que presidiu a primeira seção penal (1985–1993) marcou uma intervenção decisiva sobre centenas de processos sensíveis ao país. Segundo monitoramento encomendado pelo então ministro da Justiça, Claudio Martelli, e verificado em seu relatório pelo juiz Giovanni Falcone, o colegiado por ele presidido anulou ou remeteu a novo julgamento cerca de 500 sentenças. Foram anulações atribuídas a vícios processuais, insuficiências probatórias ou falhas formais, decisões que transformaram a rotina da Corte e reabriram debates sobre garantias e eficácia penal.
Carnevale afirmava que sua atuação visava restabelecer estrita observância das regras processuais e evitar condenações baseadas em pressupostos frágeis. Em entrevistas e documentos públicos, lembrava um episódio inicial da carreira que o marcou: a condenação de um réu sem provas, sustentada apenas por preconceitos sociais. A experiência teria cimentado nele uma profunda desconfiança em relação a decisões que se afastassem do rigor processual.
Seu legado é complexo e contraditório: foi a figura de um magistrado com enorme poder de influenciar resultados judiciais e, simultaneamente, alvo de críticas por decisões que a opinião pública considerou permissivas. O confronto público com o pool antimáfia de Palermo, e em especial com Giovanni Falcone, tornou-se emblemático da polarização entre abordagens antagônicas sobre justiça e combate ao crime organizado.
Com sua partida, encerra-se uma etapa relevante da história judiciária italiana, marcada por disputas sobre o alcance das garantias processuais, a eficácia do sistema penal e a relação entre magistratura e realidade política do país. A apuração e o cruzamento de fontes disponíveis atestam que Carnevale deixa uma biografia jurídica profunda, que seguirá sendo objeto de estudos e controvérsias.
Informações sobre cerimônia e registros oficiais foram confirmadas junto a fontes institucionais e familiares. A Espresso Italia acompanha a cobertura e publicará documentos e análises complementares nos próximos dias.






















