Por Giulliano Martini — Quarenta anos depois, o professor Vincenzo Musacchio reconstrói uma página determinante da justiça italiana: o Maxiprocesso de Palermo. O reexame não é uma celebração ritual; trata-se de um raio-x jornalístico sobre o significado daquele julgamento e sobre como a mafia se remodelou desde então.
Segundo Musacchio, o Maxiprocesso representou, inicialmente, uma vitória substancial do Estado. Pela primeira vez na história da luta contra a Cosa Nostra houve condenações relevantes de grandes chefes: o processo reuniu cerca de 4.000 páginas de atos (aproximadamente 8.000 em algumas contagens), resultou em 475 imputações e 19 penas de prisão perpétua. Ainda assim, alerta o professor, não foi o fim do conflito. Foi a vitória de uma batalha — a guerra contra a mafia prossegue.
O elemento decisivo, lembra Musacchio, foram os pentiti. Em especial, as declarações de Tommaso Buscetta e de Contorno permitiram aos magistrados reconstruir a Cosa Nostra como uma organização harmônica e hierarquizada, e não um mosaico de grupos locais isolados. Sem esses depoimentos a força do processo teria sido muito menor. Porém, o professor sublinha que as investigações, as provas e o trabalho do pool liderado por Giovanni Falcone e Paolo Borsellino também foram essenciais para que as condenações se firmassem ao longo dos recursos até a Cassação.
À crítica de que o Maxiprocesso teria sido mais espetáculo midiático do que operação jurídica séria, Musacchio responde com precisão: a cobertura da imprensa foi intensa, mas não havia cenografia; havia investigação longa, cronológica e documental. As milhares de páginas, a técnica dos inquéritos e o compromisso dos magistrados constituem prova de que se tratou de trabalho judiciário aprofundado, resultante de anos de apuração.
Sobre o espaço que as instituições e a sociedade civil deram a Falcone e Borsellino na época, a avaliação é dura: foram muitas vezes isolados, desacreditados e atacados politicamente. O reconhecimento público pleno só veio após as bombas de 1992, quando a opinião pública e as estruturas do Estado finalmente mediram o alcance do trabalho daqueles magistrados. Como observa Musacchio, o reconhecimento muitas vezes chegou de forma postuma e protocolar.
Quanto ao efeito imediato do processo sobre a mafia, houve transformação. O Maxiprocesso forçou a Cosa Nostra a se reorganizar, a mudar táticas e a adaptar-se ao contexto econômico e tecnológico. A derrota judicial não desmontou completamente suas bases políticas, econômicas e culturais — em parte porque muitos opositores do crime organizado foram assassinados, e em parte porque as redes de influência sobreviveram.
Conclui Musacchio com uma observação prática: o julgamento foi ponto de virada, porém não solução definitiva. A lição que permanece é dupla e clara — o Estado pode vencer batalhas jurídicas decisivas, mas a consolidação de uma vitória estratégica exige políticas públicas, vigilância contínua e reparação das fragilidades institucionais exploradas pela mafia. A memória do Maxiprocesso serve, portanto, como bússola para entender o presente e calibrar respostas futuras.
Apuração in loco, cruzamento de fontes e fatos brutos: esse é o retrato que Musacchio devolve à sociedade — um panorama técnico e seco, sem mitificações, sobre o maior processo contra a Cosa Nostra que a Itália já conheceu.





















