Antonio Zappi, presidente da AIA, está no centro de uma investigação que agita o universo da arbitragem italiana e pode culminar, em audiência marcada para 12 de janeiro, na sua condenação e possível perda do cargo. A acusação principal — que consta de um dossiê de cerca de 250 páginas — aponta que Zappi teria usado práticas coercitivas para forçar demissões na cúpula da arbitragem, abrindo espaço para nomes do seu agrado, entre eles os ex-árbitros Daniele Orsato e Stefano Braschi.
O caso começou formalmente em 28 de julho de 2025, quando uma carta endereçada à Procura Federale da Federação de Futebol chegou assinada por alguém que se identifica como Roberto Patrassi, árbitro de 73 anos da seção de Macerata. No documento, o denunciante relata “com profundo turbamento e indignação” uma série de comportamentos descritos como “reiterados, agressivos e sistemici”, supostamente promovidos por Zappi e por outros dirigentes de topo, e diz que tais condutas teriam induzido numerosos dirigentes arbitrais a renunciar, para substituí‑los por figuras previamente selecionadas.
Entre os nomes apontados como vítimas no expediente estariam seis dirigentes, incluindo Maurizio Ciampi e Alessandro Pizzi, responsáveis pelas comissões que tratam das designações nas séries inferiores (CAN C e CAN D). A Procura Federale reagiu imediatamente: convocou testemunhas e iniciou averiguações no dia seguinte à chegada da denúncia.
O inquérito ganha contornos mais amplos quando cruzado com a iniciativa anunciada pela FIGC em setembro: a criação da PGMOL (Professional Game Match Officials Limited), entidade que concentraria uma seleção restrita — cerca de vinte árbitros — e em que estariam FIGC e a Lega, mas não a AIA. Zappi posicionou‑se publicamente contra a proposta, intensificando as tensões.
Em dezembro, o episódio extrapolou o circuito esportivo e chegou ao Parlamento: foram apresentadas duas interrogações parlamentares bipartidárias dirigidas ao ministro do Esporte, Andrea Abodi, evidenciando a gravidade política do caso. No campo interno da arbitragem, as repercussões práticas já são visíveis: crises emocionais, recolhimento de dirigentes, trocas de mensagens em chats e até hipóteses de saída de figuras importantes, como o designador Gianluca Rocchi, que apontou a possibilidade de renúncia diante das controvérsias causadas pelo VAR e por outras fraturas internas.
Uma anomalia que chama atenção no início da investigação ocorreu em 18 de setembro, durante diligências nos escritórios do Comitê AIA da Lombardia: foi registrado um confronto entre o suposto autor da denúncia e representantes da Procura, durante o qual a pessoa identificada como Patrassi teria negado, com veemência, ser o autor do escrito que originou as averiguações. A negativa, num momento já adiantado das apurações, adicionou mais camadas de complexidade ao processo.
O panorama traçado nos documentos a que a nossa redação teve acesso revela um cenário multifacetado: disputas de poder, acusações e retratações, lágrimas e tensões internas que incidem sobre a credibilidade da arbitragem. A investigação da justiça desportiva seguirá seu curso e a audiência de 12 de janeiro será um ponto central para determinar responsabilidades formais.
Como correspondente com longa experiência e atuação direta na cobertura institucional italiana, cruzamos documentos e cronologias — fatos brutos e verificáveis — para apresentar o raio‑x desta crise. A evolução do caso dependerá agora das provas produzidas em juízo, das explicações formais dos envolvidos e das decisões que a federação e os órgãos disciplinares vierem a tomar.






















