Por Giulliano Martini — Em apuração in loco e cruzamento de fontes: um aposentado de 80 anos residente na província de Pordenone foi ouvido hoje pela manhã no quarto andar da Procuradoria de Milão como indiciado por suposto envolvimento como atirador italiano durante o cerco de Sarajevo na guerra da ex‑Jugoslávia.
O interrogatório foi conduzido pelo procurador Marcello Viola e pelo magistrado Alessandro Gobbis. O homem, ex‑caminhoneiro, é investigado por homicídio doloso agravado pela crueldade e por motivos torpes e fúteis, segundo a peça investigativa em tramitação.
Ao chegar à sede da Procuradoria, a presença chamou atenção: boné preto e máscara da mesma cor a cobrir o rosto, visíveis apenas os olhos. No imóvel do indiciado, militares do Reparto Operativo Speciale (ROS) localizaram sete armas de caça, registradas e legalmente em poder do investigado, segundo consta nos autos.
O caso chegou aos magistrados no ano passado a partir de uma representação protocolada pelo escritor Ezio Gavazzeni, que vem estudando e documentando relatos sobre os chamados “safáris humanos” na região dos Bálcãs. A denúncia foi apresentada com o apoio dos advogados Guido Salvini e Nicola Brigida e motivou a abertura das investigações preliminares.
Fontes próximas ao inquérito relatam que depoimentos de testemunhas teriam apontado o octogenário como autor de vangloriosas referências às mortes supostamente cometidas durante a guerra, circunstância que levou os investigadores a aprofundar os checagens históricas e de movimentação.
No curso do interrogatório, com duração aproximada de uma hora, o indiciado teria respondido repetidamente com uma sequência de “não é verdade” a todas as perguntas formuladas pelos magistrados. Em trechos anteriores da investigação havia sido relatado que ele poderia ter optado por não se avvaler da palavra; contudo, nas diligências de hoje ele prestou declarações claras de negação quanto à sua presença na Bósnia e quanto a eventuais disparos contra civis.
“Não é verdade que estive na Bósnia; não é verdade que disparei contra civis”, afirmou, segundo relato apurado pela reportagem. O investigado também teria negado ter realizado atividade política, pública ou administrativa nos anos de conflito. Ao deixar o Palácio de Justiça, ele não respondeu às perguntas dos jornalistas presentes.
O advogado de defesa, Giovanni Menegon, afirmou que seu cliente “respondeu a todas as perguntas e reiterou sua absoluta estranheza aos fatos” e anunciou que pretende adotar medidas legais para proteger a reputação do octogenário em face de reportagens recentes. “Confio que os magistrados farão todos os esclarecimentos necessários”, declarou Menegon.
Os procuradores informaram que as declarações colhidas hoje serão objeto de verificação documental e de confrontos com outras fontes e arquivos de época. A investigação seguirá com diligências complementares, inclusive a checagem de movimentações internacionais nos anos de 1992 a 1995 e a confrontação das alegações das testemunhas que motivaram a denúncia.
Resumo técnico: indiciado — aposentado de 80 anos (ex‑caminhoneiro); acusação — homicídio doloso agravado; elemento probatório inicial — testemunhos e representação de Ezio Gavazzeni; diligências já executadas — apreensão de sete armas registradas; próximas etapas — cruzamento de arquivos, verificação de itinerários e confrontação de depoimentos.






















